Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Desintoxicação não previne câncer de colo

Por Marina Verjovsky

Um estudo desenvolvido pela equipe da pesquisadora Maria da Glória Costa Carvalho, pertencente ao Programa de Oncobiologia, ajuda a esclarecer o papel de enzimas na agressividade do câncer de colo de útero. A equipe se surpreendeu ao constatar que a ausência de determinados genes associados a enzimas tesintoxicantes não provoca maior susceptibilidade ao câncer. Mas, dependendo de quais genes estão presentes, favorecem ou desfavorecem o aparecimento de tipos diferentes de lesões.

As enzimas estudadas são as glutationas transferases, presentes na 2ª fase do metabolismo das células. Elas ajudam a eliminar substâncias carcinogênicas das células, pois as tornam mais solúveis em água, o que facilita a sua excreção. Estas enzimas são codificadas pelos genes GSTT1 e GSTM1 - assim, os cientistas acreditavam que as pessoas que não apresentam estes genes teriam maior predisposição ao câncer.

"Portanto, buscamos relacionar em que gravidade da doença esses genes estavam presentes ou ausentes", explica a doutoranda Fernanda Lattario, uma das responsáveis pela pesquisa. Para isso, eles analisaram amostras de 117 pacientes que compareceram ao ambulatório de patologia cervical do Instituto de Ginecologia do Hospital Universitário da UFRJ no último ano. Lattario ressalta que o projeto foi aprovado pelo comitê de ética do hospital.

Então, as amostras foram separadas em cinco grupos: o controle (46); com lesões de baixo grau, que têm apenas o potencial para se tornarem cancerosas (30); com lesões de alto grau, que ainda não podem ser chamadas de cânceres, pois não invadiram a membrana basal (25); além de oito com adenocarcinomas e oito com carcinomas escamosos (dois tipos de câncer de colo de útero).

Os resultados mostram que a presença de determinados genes favorece ou desfavorece o aparecimento de cada tipo de lesão. Por exemplo, os dois genes GSTT1 e GSTM1 aparecem juntos duas vezes mais freqüentemente nas pessoas com lesões (de alto e baixo grau) do que nas pessoas sem lesão alguma. "Além disso, o gene GSTM1 também está 1,6 vezes mais presente em carcinoma escamoso do que em controles", acrescenta. "Já os pacientes que apresentam apenas o GSTT1 possuem menor predisposição ao adenocarcinoma".

O resultado pareceria contraditório com a hipótese inicial de que a deleção das enzimas levaria a maior susceptibilidade ao câncer. "Porém sabe-se que existem diversos fatores associados que poderiam levar ao câncer", explica Lattario. "Dependendo do grau de exposição aos carcinógenos e do grau de ativação das enzimas de fase I, poderia haver menor ou maior predisposição".

O trabalho foi selecionado para apresentação oral no IV Congresso Internacional de Clínica Médica, pela aluna de iniciação científica Brenda Maiolino. "A apresentação foi excelente e a discussão muito construtiva", comenta Fernanda. "Não houve dúvidas a respeito da metodologia e os resultados não foram questionados. Os avaliadores mostraram-se bastante satisfeitos e elogiaram a apresentação".

A equipe também desenvolve projetos sobre os genes GSTT1 e GSTM1 em tumores do cérebro e em tumores sólidos em geral. Algumas das linhas de pesquisa também pretendem avaliar a metilação de genes relacionados ao ciclo celular em câncer cervical e estudar as infecções pelos vírus HPV e EBV em lesões precursoras e câncer de colo.

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