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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Prevenção do câncer e detecção precoce no Brasil do século 20

Estudar a história do câncer no Brasil é o objetivo do trabalho de doutorado de Luiz Alves Araújo Neto, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Seu trabalho analisa os conceitos de detecção precoce e prevenção do câncer ao longo de todo o século 20. É curioso notar que, embora a tecnologia tenha avançado a passos largos nesses cem anos, a opinião pública em relação à doença pouco mudou.

“Comparando o cenário do câncer em 1916 e em 2016, vemos duas realidades completamente diferentes. Porém, a maneira como as pessoas pensam sobre a doença não é tão diferente assim”, explica Luiz. Ainda existe uma forte associação do câncer a sentimentos negativos, como dor e sofrimento – mesmo que os tratamentos tenham avançado e que as chances de cura de determinados tipos de câncer sejam grandes.

“No início do século 20, o pensamento predominante era o de que a doença precisava ser descoberta o mais cedo possível. Para isso, a população deveria conhecer os sinais e sintomas iniciais. No final do século, a detecção precoce passa a ser parte de algo maior, que é a prevenção. Nesse entremeio, temos vários processos que perpassam a história dos dois conceitos”, afirma Luiz.

Outro aspecto que mudou ao longo dos últimos cem anos está relacionado ao “status” da doença. Antes o câncer era considerado como uma doença de elite, um sinal de desenvolvimento. Afinal, uma população que chega a idades mais avançadas tem mais chances de ser afetada pelo câncer. Por essa razão, as ações de tratamento e diagnóstico precoce estavam mais restritas à iniciativa privada. Hoje em dia, esse panorama mudou. Alguns tipos de tumores são associados à miséria.

“A rede de saúde pública no Brasil é muito frágil, e por isso alguns tipos de câncer, como o de colo do útero, matam mais do que outros. Não é porque são mais incidentes, mas sim porque não são diagnosticados precocemente. Analisar isso permite mostrar como esse processo traz para dentro da saúde pública uma questão que era somente da iniciativa privada”, explica Luiz Antonio Teixeira, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz e orientador desta pesquisa.

Os primeiros institutos do câncer no país foram criados em meados do século 20 porque o conceito da detecção precoce mobilizava a ideia da doença. Os médicos, assim, conseguiram convencer o poder público e as elites de que eram necessários especialistas em câncer no Brasil.

Ainda que a tecnologia tenha avançado, Luiz Antonio afirma que, hoje em dia, a medicina cria uma noção do câncer que também não é real. Atualmente, são muito comuns as tentativas de desmistificar a doença perante a sociedade, diminuindo seu estigma negativo. “Porém, muito mais importante que isso é a agressividade do câncer. Na década de 50, acreditava-se que era eficiente botar medo nas pessoas, porque quem tem medo procura o médico. Era comum o uso de imagens assustadoras, envolvendo mutilação, por exemplo. Essa noção, entretanto, está longe da realidade. Ao contrário do que se imaginava, muitas pessoas fogem do médico quando estão com medo. Hoje em dia, só as campanhas contra as doenças relacionadas ao tabaco possuem essa lógica”, explica.

Parte dessas reflexões foram recentemente publicadas em um artigo no Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi - Ciências Humanas. 

Para acessar, clique neste link: http://www.museu-goeldi.br/editora/humanas/index.html

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