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Câncer no Ceará dos anos 40 a 60

Uma nova área da medicina não se cria naturalmente. Ela surge devido à ação de inúmeros indivíduos que possuem interesses diversos. Nem sempre, porém, o interesse principal é salvar a vida das pessoas. Mas será que isso é um problema? Luiz Alves Araújo Neto, doutorando da Casa de Oswaldo Cruz, analisou em sua dissertação de mestrado o processo de organização das primeiras ações de controle do câncer no Ceará, entre os anos de 1940 e 1960. Um grupo de apenas dez médicos teve papel de grande relevância neste processo.

Esse grupo de médicos, conhecidos hoje como “Geração de 1941”, voltava à Fortaleza depois de formados fora do estado. “Eram cerca de vinte médicos, e eles tinham um interesse muito específico de criar uma Faculdade de Medicina no Ceará. Na época, havia no estado apenas cerca de 100 profissionais de medicina, e poucos tinham formação especializada. Dez médicos desse grupo tiveram a ideia de fundar associações de assistência a pacientes de doenças específicas, como, por exemplo, a Sociedade Cearense de Cardiologia e o Instituto do Câncer do Ceará, criado em 1944. A existência de instituições voltadas para doenças específicas era parte desse projeto de criação de uma faculdade”, explica Luiz.

Curioso é que, desse grupo de dez médicos, nenhum deles tinha especialização em alguma área oncológica. Na época, no Brasil, nem sequer existia esse tipo de formação. Além disso, a doença não era considerada um problema de saúde pública em nosso país. O Ceará dos anos 40 sofria muito mais com problemas típicos de regiões em desenvolvimento, como verminoses rurais e uma preocupante epidemia de malária.

Estruturação da rede de controle do câncer

“O que levou esses médicos a estruturar a cancerologia no Ceará não foi uma motivação altruísta ou heroica, mas sim o interesse profissional deles em criar uma formação médica do estado. E isso de forma alguma é negativo. Afinal, se não fossem seus interesses e articulações, o Instituto do Câncer do Ceará não teria nascido naquele momento”, afirma o pesquisador.

Nos anos 40, não existia nenhum centro específico para o tratamento de câncer no Ceará. A partir desse momento, diversos avanços são conquistados nesta área. Além da criação do Instituto do Câncer em 1944, nos anos 50, uma ala inteira do Hospital das Clínicas passou a ser destinada a este centro, que já era parte da Faculdade de Medicina (fundada em 1948). Em 1949, foi inaugurado um serviço especializado em cancerologia na Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza.

“O processo de criação do Instituto do Câncer nada mais é do que a tentativa desses médicos de tornar o tratamento do câncer algo socialmente relevante e visível, mesmo que na época a doença não fosse o grande problema a ser combatido no estado”, esclarece.

Câncer como motivo de preocupação

Para sustentar o argumento de que o câncer era um problema relevante no Ceará, os médicos usaram dois pontos-chave. “O primeiro é o de que o câncer era um sinal de desenvolvimento. Afinal, em uma sociedade próspera as pessoas vivem mais, o que aumenta o risco de aparecimento da doença. Outro ponto é que, para eles, o câncer era a ‘doença do futuro’. Então eles queriam educar a população e estruturar o combate à doença o mais cedo possível, para que no futuro ela não gerasse tantos problemas”, explica o pesquisador.

É importante mencionar que esses médicos não agiram sozinhos. Uma série de personagens foi fundamental nesse processo, como empresários locais, jornalistas e as esposas dos médicos.

“Essas esposas criaram a Rede Feminina do Instituto do Câncer, responsável por captar recursos, através de bailes e eventos beneficentes, que tornaram possíveis boa parte dos empreendimentos médicos contra o câncer”, comenta.

A partir dos argumentos mencionados, este grupo de médicos organizou uma campanha de conscientização para os cidadãos, lançada em 1954. “Tratava-se de uma exposição, com a participação de médicos e políticos, em que a doença foi ‘apresentada’ à sociedade, através da divulgação de aspectos do diagnóstico e tratamento. Naquela época, acreditava-se que o câncer era causado por irritações ou lesões. Outro ponto interessante é que não se falava em prevenção, pois não se sabia como evitar a doença. A preocupação dos médicos era que a população conhecesse os sintomas do câncer para, assim, aumentar as chances de um diagnóstico precoce”.

Para Luiz, o grande ponto de sua dissertação está em mostrar que interesses profissionais, financeiros, científicos e humanitários convergem. “Não faz sentido nem romantizar nem vilanizar esses médicos. Eles eram pessoas normais, com interesses diversos”.

O professor orientador deste trabalho é Luiz Antonio Teixeira, também da Casa de Oswaldo Cruz. Para ele, esta pesquisa é de grande relevância: “Acho que a dissertação do Luiz é uma contribuição muito importante para a história da saúde no Brasil. Existem poucos estudos no país sobre doenças crônico-degenerativas. Hoje, com o envelhecimento da nossa população, é necessário que se estude mais o câncer no campo da saúde pública. Através do conhecimento da história, temos como discutir e iluminar questões do presente”, finaliza.

Exposição educativa realizada em Fortaleza, 1954. Da esquerda para a direita: General Humberto Castelo Branco, Walter Cantídio (fundador do Instituto do Câncer do Ceará), Maria José Weyne (filantropa dedicada ao câncer), Raul Barbosa (governador do Ceará), Newton Gonçalves e Haroldo Juaçaba (fundadores do Instituto do Câncer do Ceará). 

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