Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Açúcares contra o câncer

Algumas substâncias são capazes de aumentar a malignidade de células tumorais. É o caso da proteína Galectina-3, que, no câncer, age de diferentes maneiras, dependendo do compartimento celular em que se encontra – núcleo, citoplasma ou matriz extracelular. Felipe Teixeira, estudante de doutorado do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, investiga a ação desta proteína no câncer de mama e estuda alguns tipos de açúcar que podem inibir sua ação. Nesta entrevista ao OncoNews, ele explica seu trabalho e fala sobre alguns dos resultados já alcançados.

Quando você começou seu doutorado? Por que você decidiu estudar esse assunto?

Eu comecei meu doutorado em abril de 2016. Nele eu pesquiso a capacidade de alguns polissacarídeos sulfatados que isolamos de invertebrados marinhos em inibir a Galectina-3. Esta proteína é uma lectina, ou seja, possui uma região de reconhecimento de carboidratos e essa região é fundamental para sua atividade biológica. No modelo de câncer de mama humano que nós utilizamos no laboratório, ela potencializa a malignidade destas células quando age na matriz extracelular associada a alguns polissacarídeos de membrana.

Meu objetivo é tentar usar os açúcares, que isolo de invertebrados marinhos, de maneira a impedir esta ação da Galectina-3 na membrana, e assim diminuir a malignidade destas células. Meu interesse nesta área veio do meu projeto desenvolvido durante a iniciação científica e o mestrado onde eu estudava a ação de outra lectina, chamada P-selectina, na metástase. Esses projetos despertaram meu interesse nas atividades das proteínas reconhecedoras de carboidratos no câncer e, ao estudar mais sobre esse tema, descobri um campo muito vasto e interessante com muitas perguntas ainda por serem respondidas.

Quais os principais resultados já alcançados até o momento?

Como qualquer projeto que ainda está dando os primeiros passos, tivemos um começo de muito trabalho e de resultados que demoram a aparecer. Ano passado conseguimos expressar a Galectina-3 em bactérias, com a ajuda da professora Monica Lomeli. Isso é muito bom, visto que poderemos produzir esta proteína em larga escala e evitar a necessidade de importar este insumo.

Além deste resultado, nós trabalhamos em isolar uma boa quantidade dos polissacarídeos sulfatados produzidos por dois invertebrados marinhos diferentes, um ouriço-do-mar e uma ascídia, que acreditamos que possam interagir com a Galectina-3, e testamos a citotoxicidade destes compostos para avaliar se poderíamos usar nos nossos testes. Já bem no final do ano nós começamos a de fato montar os modelos celulares ideais para responder a nossa pergunta e é este o passo que está em andamento agora.

Existem outros polissacarídeos também "promissores"?

Sim, existem. Quando eu ainda estava estudando a P-selectina, utilizava outros polissacarídeos que demonstravam um grande potencial antimetastático naquele modelo. Agora com a Galectina-3 eu acredito que outros polissacarídeos sulfatados que nós já estudamos no laboratório também possam ser utilizados para inibi-la. O maior fator limitante para minha pesquisa de doutorado é que o acesso a algumas fontes é bastante limitado, visto que nós já estudamos algumas espécies que só existem em regiões bastante isoladas do mundo, como a Antártida, por exemplo. Além disso, muitos destes polissacarídeos também possuem uma atividade anti-inflamatória e anticoagulante significativa, o que seria uma característica ruim no nosso estudo por ocasionar diversos efeitos colaterais indesejados.

No meu projeto de doutorado, até o momento, estou planejando testar estes dois açúcares que possuem uma baixa atividade anticoagulante e são isolados de animais que podemos encontrar facilmente na Baía de Guanabara.

Quais os próximos passos da sua pesquisa?

Eu ainda tenho muito trabalho pela frente, mas num futuro próximo pretendo realizar ensaios de calorimetria para quantificar a interação dos polissacarídeos com a Galectina-3. Isso vai me responder se eles realmente podem ser utilizados como uma ferramenta inibitória, nos ensaios funcionais. Em um próximo passo testarei se eles conseguem inibir de fato a atividade metastática induzida por Galectina-3 extracelular no nosso modelo de câncer de mama.

design manuela roitman | programação e implementação corbata