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Advertências nas embalagens de alimentos ultraprocessados: uma necessidade?

Desde 2002, os fabricantes de cigarro brasileiros são obrigados a estampar nos maços de seus produtos imagens que alertam sobre os riscos e males do tabagismo. Agora a mesma estratégia começa a ser aplicada nos alimentos ultraprocessados, ricos em sódio, gordura trans e açúcar. Isabel de Paula Antunes David é pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e faz parte de um grupo que desenvolve advertências a serem aplicadas nas embalagens de alimentos considerados não-saudáveis.

Nesta entrevista, Isabel explica ao OncoNews qual foi a motivação inicial para este trabalho e quais são os resultados esperados.

Quando foi que esse projeto teve início e por quê?

O nosso grupo, composto por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense e Universidade Federal do Rio de Janeiro, já vinha trabalhando como parte de uma equipe multidisciplinar, em um projeto que envolvia a elaboração e testagem das advertências em forma de imagens pictóricas que são hoje aplicadas aos produtos do tabaco. Apesar da crescente evidência em favor do uso de advertências aplicadas a produtos do tabaco, pouco tem sido feito no sentido de aplicar estratégias semelhantes no combate à propaganda de alimentos não saudáveis.

Começar uma linha de pesquisa que desse embasamento científico à aplicação de advertências no âmbito dos alimentos industrializados foi, portanto, um caminho natural. O mercado de alimentos ultraprocessados utiliza-se largamente das mais sofisticadas estratégias de neuromarketing, que tem como embasamento teórico a psicologia e a neurobiologia, para promoção dos seus produtos.

Devido ao aumento expressivo da obesidade e de doenças associadas (incluindo o câncer), aplicar este conhecimento em favor das estratégias de saúde pública torna-se urgente. A adoção de regulação específica para o marketing de alimentos não saudáveis tem sido inclusive recomendada pela Organização Mundial da Saúde, Organização Pan-Americana de Saúde e por organizações de defesa da saúde e do consumidor.

O Brasil tem investido na regulação de produtos não saudáveis, mais concretamente a partir da resolução RDC nº 24, promulgada em 15 de junho de 2010, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para regulamentar a promoção comercial de alimentos com quantidades elevadas de açúcar, de gordura saturada, de gordura trans, de sódio e de bebidas com baixo teor nutricional.

A resolução institui que a divulgação e a promoção comercial desses alimentos e bebidas sejam acompanhadas de advertências em forma de frases, contendo informações sobre o excesso desses componentes e sobre os riscos à saúde. Tendo inicialmente como base a RDC 24/2010, nós iniciamos um projeto piloto em 2012. O resultado deste piloto já apontava que advertências em forma de frases que antecediam a apresentação de imagens de alimentos ultraprocessados eram capazes de modular o impacto emocional destas imagens, deixando-as menos apetitivas.

Esta resolução da Anvisa estabelece que a divulgação e a promoção comercial na TV e internet de produtos industrializados não-saudáveis deve vir acompanhada de textos de advertência, mas isso ainda não acontece. Por quê?

A RDC 24/2010, assim como projetos de lei que abordam este tema tem criado uma forte reação de setores da indústria de alimentos e um intenso debate jurídico. Diferentemente dos produtos do tabaco, que são inegavelmente prejudiciais à saúde, estes produtos abrem margem para a dúvida sobre que aspectos nutricionais poderiam ser prejudiciais à saúde.

O uso de substâncias cancerígenas pode ocorrer em paralelo à adição de fibras, vitaminas e minerais, o que “mascara” a insalubridade destes produtos. Como consequência, a regulação da propaganda de alimentos no Brasil ocorre através da autorregulamentação, criada pelo próprio setor privado. Além disso, a falta de evidências sobre a efetividade do uso de tais abordagens é muitas vezes utilizada como justificativa para a não implementação destas, o que aumenta a necessidade de investigação da efetividade das advertências e/ou sistemas de rotulagens propostos.

Quais foram as advertências estudadas por vocês? Em quais produtos/marcas?

Além das advertências em formas de frases propostas pela RDC 24/2010, voltada principalmente para a promoção comercial na TV, nós estamos estudando o efeito de sistemas de rotulagens dispostos nas embalagens sobre a modulação do processamento emocional de imagens de alimentos ultraprocessados.

Grande parte dos consumidores tem dificuldade em compreender a informação fornecida pelos rótulos nutricionais tradicionais e traduzi-la em orientações práticas para a seleção de uma dieta saudável. Hoje no Brasil, a disposição na embalagem da tabela contendo as informações sobre a qualidade nutricional do produto é ruim, geralmente disposta na parte de trás e em letras pequenas, além do seu conteúdo ser de difícil compreensão para a grande maioria da população.

No Reino Unido, foi proposto um sistema de rotulagem a ser aplicado à embalagem dos produtos industrializados em forma de semáforo nutricional, que deve ser impresso na frente da embalagem e que utiliza diferentes cores como indicativo de valores elevados ou seguros de açúcar, sódio e gordura saturada. Esse sistema de rotulagem tem o potencial de apresentar os nutrientes-chave de forma simples e inteligível.

As imagens de alimentos ultraprocessados utilizadas em nossos experimentos contemplam produtos que normalmente ultrapassam o limite estipulado pela RDC 24/2010 em ao menos uma substância considerada insalubre se consumida em excesso, como gordura saturada/trans, sal e açúcar. Alguns exemplos incluem macarrão instantâneo, biscoitos do tipo snacks, biscoitos recheados, balas, nuggets, embutidos e refrigerantes. Como a própria marca tem o potencial de aumentar ou reduzir o impacto emocional do produto, nós optamos neste primeiro momento em usar apenas produtos genéricos, sem a marca associada.

Quais os principais resultados já obtidos até agora?

Em um estudo envolvendo aproximadamente 100 voluntários que julgavam várias imagens de alimentos ultraprocessados, nós observamos que estas imagens se tornavam menos apetitivas e incitavam menor desejo de consumo quando precedidos por frases de advertência, quando comparado a frases controle.

De forma interessante, este resultado se mantém independente da qualidade da alimentação do indivíduo. As advertências surtiram efeito mesmo para os indivíduos que consomem usualmente estes produtos. Em outro estudo, nós sistematizamos os achados da literatura sobre a efetividade do sistema de rotulagem em forma de semáforo nutricional em promover escolhas mais saudáveis.

Neste estudo nós demonstramos que a efetividade do semáforo nutricional pode ser ampliada através de estratégias que visem aumentar a compreensão do significado das diferentes cores utilizadas neste tipo de rotulagem. Os consumidores devem facilmente entender que o vermelho estaria associado ao maior risco de desenvolvimento de doenças quando aquele produto é consumido em excesso. Estes resultados estão em preparação ou submetidos para publicação.

Quais os próximos passos?

Em outro estudo já em andamento o eletroencefalograma está sendo registrado, enquanto os indivíduos visualizam passivamente as imagens de alimentos precedidas pelos semáforos nutricionais. O intuito é obtermos um marcador cerebral da reatividade emocional às imagens de alimentos e observarmos a modulação deste marcador pelas advertências e/ou sistemas de rotulagem.

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