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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Quem veio primeiro?

Um estudo realizado no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ em 178 amostras de urina recebidas pelo Laboratório de Patologia Molecular identificou uma associação entre o vírus do gênero Polyomavirus(Grego: poly, muitos; oma, tumor) e neoplasias uroteliais (do trato urinário). Essa correlação foi observada em cerca de 80% das amostras diagnosticadas com neoplasias uroteliais.

A médica patologista, Patrícia Assis, orientada pela pesquisadora Maria da Glória Costa Carvalho, do Programa de Oncobiologia, explica que existem dois principais tipos de polyomavirus: o BK e o JC. O que pode provocar cistite hemorrágica em pacientes imunossuprimidos em virtude de transplante renal e, muitas vezes, a infecção leva à perda do enxerto, principalmente nos dois primeiros anos após a cirurgia. A prevalência da nefropatia pelo BKV em transplante de rim varia de 1 a 10% nos estudos publicados.

A novidade deste estudo é a alta correlação da infecção por polyomavirus com neoplasias uroteliais. Nas amostras analisadas por PCR, 33% foram positivas para JCV e 40% BKV. Maria da Glória ressalta que, como a técnica de PCR é cara, são raros os grupos que fazem pesquisa de rotina separando os vírus JC e BK, além de isolar o DNA das amostras de urina. Ainda segundo ela, foi curioso notar que nas citologias que apresentavam apenas atipias leves, alterações inespecíficas na morfologia das células, todas foram negativas para os vírus. Os polyomavirus, de acordo com Maria da Glória, são descritos na literatura com potencial oncogênico para outros tipos de tumores como o BKV para câncer de próstata e o JCV para tumores cerebrais. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde, por meio do International Agency for Cancer Research Monograph Working Group, classificou o BKV e o JCV como potenciais no desenvolvimento de neoplasias em humanos.

O que intriga Patrícia Assis é se os indivíduos que tiveram a urina testada e deram positivo para neoplasia têm o polyomavirus porque este saiu de latência por estarem imunodeprimidos ou se estão produzindo neoplasias por que têm o vírus e estão imunossupressos? Patrícia esclarece que 90% da população já foi contaminada pelo polyomavirus na primeira década de vida, mas que o vírus pode ficar de forma latente por toda a vida.

Ainda não existem tratamentos contra o polyomavirus e mais estudos são necessários sobre essa associação. Patrícia defenderá sua tese de doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Patologia, da Faculdade de Medicina da UFRJ, em 2018 e, espera até lá, poder responder a outros questionamentos da comunidade científica. “Até agora há muita nebulosidade e faltam mais evidências”, afirma.

 

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