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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Relação entre mitocôndria e metástase é tema de pesquisa

Um artigo publicado em dezembro de 2015 por pesquisadores do Programa de Oncobiologia lança luz sobre um aspecto da metástase tumoral ainda pouco estudado. De acordo com o estudo, a progressão para metástase depende da função mitocondrial. A investigação foi feita utilizando células tumorais com diferentes graus de malignidade e o foco foi dado aos eventos metabólicos, em especial aqueles envolvendo a mitocôndria.

“Ao invés de olharmos para fatores de regulação, resolvemos observar o metabolismo dessas células. Para isso, usamos células de melanoma normais (melanócitos), tumorais e metastáticas, todas da mesma linhagem murina. O processo para obter células malignas, desenvolvido originalmente pelo grupo da Dra. Miriam Jasiulionis da Unifesp, uma das autoras do artigo, consistiu em impedir que estas aderissem à matriz de cultivo. Após sucessivas etapas de impedimento de aderência as células sobreviventes passaram a se comportar como metastáticas. A vantagem dessa técnica é obter linhagens tumorais sem lançar mão de nenhum tipo de agente oncogênico, que em geral é um vírus”, explica Franklin Rumjanek, também autor do artigo. Até há pouco tempo, acreditava-se que a célula tumoral obtinha sua energia exclusivamente do metabolismo glicolítico anaeróbio, ou seja, sobrevivia sem oxigênio. Esse é o chamado Efeito Warburg, descrito originalmente nos anos 20. Warburg acreditava que todos os tumores tinham esse comportamento, e creditou esse fato a um defeito na mitocôndria das células. Ele chegou a sugerir que o câncer poderia ser causado dessa maneira.

“De fato, numa primeira análise a célula tumoral parece depender mais do metabolismo anaeróbico. Mas, constatamos que à medida que ela vai ficando mais agressiva, a célula começa sim a usar o oxigênio (metabolismo oxidativo). Esse foi um dos grandes achados do trabalho atual”, afirma Rumjanek. “Estamos propondo a ideia de que algumas das funções mitocondriais são importantes como um suplemento de energia que viabiliza a migração pela via sanguínea e/ou linfática e a colonização de tecidos distantes”, continua.

“Com estes e outros resultados do grupo, cada vez mais acreditamos que as células tumorais não se “transformam” em metastáticas. Os tumores são muito heterogêneos, compostos por diferentes células com propriedades variadas. O que estamos propondo é que na verdade a célula metastática já existe no tumor primário, não metastático. Dependendo da pressão seletiva que se impõe ali, elas passam a manifestar suas características. E essa pressão seletiva pode inclusive ser a própria quimioterapia, que acaba permitindo com que as células tumorais mais resistentes sobrevivam e se proliferem”, finaliza o professor.

O artigo foi publicado na revista Biochemical Journal e a primeira autora é Mariana Figueiredo Rodrigues. O trabalho está disponível aqui: http://www.biochemj.org/content/early/2015/12/22/BJ20150645

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