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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Pimenta na leucemia: estudo investiga efeito da piperina em células resistentes a quimioterápicos

A piperina é um composto encontrado na pimenta do reino, tempero comum na mesa de muitos brasileiros. O projeto coordenado pela professora Eliane Fialho dentro do Programa de Oncobiologia da UFRJ tem como objetivo investigar os possíveis efeitos desta substância na reversão da resistência a múltiplas drogas (MDR) em linhagens de células de leucemia.

Fialho já trabalha há alguns anos com compostos bioativos presentes no curry (curcumina), pimenta do reino (piperina), pimenta vermelha (capsaicina), gengibre ([6]-gingerol) e vinho tinto (resveratrol).

Como tudo começou?

“O trabalho de doutorado de uma de minhas alunas, Fabiana Casanova, identificou que o resveratrol associado a um quimioterápico potencializa a ação do medicamento em células de câncer de mama em cultura”, explica Eliane.

“Para avançar nesta linha de pesquisa, decidimos estudar a ação dos compostos em células resistentes a quimioterápicos. O problema todo é que não tínhamos estas células, e produzi-las em laboratório demanda muito tempo”, continua.

Em parceria com o laboratório da Prof. Vivian Rumjanek, Eliane decidiu então investigar um outro tipo de câncer: as leucemias. Isso porque o grupo de Vivian desenvolveu duas linhagens de células leucêmicas resistentes a múltiplas drogas, que são a FEPS e a Lucena.

“Ao decidir com qual composto bioativo trabalhar, observamos a literatura e vimos que a piperina facilita a absorção de outros compostos e está associada a mecanismos de resistência a drogas”, explica a pesquisadora.

Este estudo envolve três linhagens celulares de leucemia, que são a K562, Lucena e FEPS. A K562 é a única linhagem não resistente. Observou-se em laboratório que a piperina matava as células resistentes da leucemia.

Sensibilidade colateral

“Identificamos que um dos mecanismos que a piperina desempenha é a sensibilidade colateral. Ou seja, ela transforma células resistentes à vincristina em sensíveis ao medicamento”, afirma Elaine.

O trabalho de uma de suas alunas de doutorado, Julia Quarti, tem como objetivo descobrir o mecanismo que faz com que as células resistentes se tornem sensíveis ao quimioterápico. “É muito comum que os pacientes com leucemia mieloide crônica (LMC) em crise blástica desenvolvam resistência a diversos agentes quimioterápicos, fazendo com que esse tipo de terapia seja ineficiente. Uma das estratégias para combater a resistência a múltiplas drogas é a identificação de substâncias capazes de induzir sensibilidade colateral. Enquanto os quimioterápicos convencionais não agem nas células resistentes e somente eliminam as células sensíveis a drogas, os compostos que promovem sensibilidade colateral atuam seletivamente sobre as células resistentes. Apesar de esse ser um fenômeno considerado raro, os nossos experimentos sugerem que a piperina teria um efeito mais pronunciado sobre células MDR de leucemia, em comparação com as células sensíveis. Além disso, constatamos que quanto maior é o grau de resistência da célula de câncer, mais citotóxica é a piperina. Por meio desses dados, podemos vislumbrar uma abordagem promissora na eliminação das células de leucemia resistentes a quimioterápicos”, esclarece Julia.

Quanto desses alimentos devo comer para me prevenir contra o câncer?

Eliane diz que é comum que as pessoas perguntem se o consumo desses compostos pode fazer diferença na prevenção do câncer. “Essa pergunta é muito difícil de ser respondida. Primeiro, porque a quantidade de compostos bioativos pode variar muito dependendo de como o alimento é preparado. A própria curcumina, por exemplo, não é um composto muito estável, pois há perda de cerca de 20% a 30% quando a expomos ao calor. Segundo, porque cada organismo apresenta uma individualidade bioquímica, o que explica a diferença na biodisponibilidade de nutrientes e de compostos bioativos. Apesar dessa diferença individual, sabe-se que a curcumina é pouco biodisponível. Além disso, alguns estudos recentes associam a biodisponibilidade com a microbiota intestinal, que varia de pessoa para pessoa”, explica a cientista.

Ensaios clínicos

Na área de alimentos funcionais já existem muitos ensaios clínicos, mas os estudos são muito recentes. Esta é uma área promissora e que está em constante crescimento.

“Ainda não existem estudos clínicos com piperina e células resistentes ao quimioterápico. Estamos na fase de ensaios em laboratório e queremos ingressar na prática clínica, mas isso demanda muitos cuidados, então talvez ainda tenhamos alguns anos pela frente até chegar nesta etapa”, finaliza.
 

Crise blástica em leucemia mieloide crônica.

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