Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Controle de câncer do colo de útero no Brasil: o que mudou nos últimos 60 anos

Para quem ainda não conhece, o trabalho das Pioneiras Sociais foi fundamental para a saúde pública no Brasil, especialmente a saúde da mulher. Em 1956 o então presidente Juscelino Kubitschek pediu ao doutor Arthur Campos da Paz para desenvolver um centro de pesquisas sobre a saúde da mulher, voltado para o controle do câncer de colo do útero e de mama, o chamado centro de pesquisa Luiza Gomes de Lemos, homenagem à sogra de Juscelino que havia falecido por ocasião de um câncer de colo do útero diagnosticado em estágio bastante avançado.

Rosana Temperini analisa em seu trabalho de doutorado do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz esse período histórico que envolve todo o trabalho desenvolvido pelo doutor Arthur Campos da Paz nesse centro de pesquisa.

No estudo, Temperini analisa a atuação da Fundação das Pioneiras Sociais na assistência à saúde da população, a partir de meados do século XX e, mais especificamente, sobre sua contribuição para o controle do câncer cervical no Brasil. O trabalho se insere no contexto em que a difusão do exame Papanicolaou começa a ser introduzida no Brasil, principalmente a partir dos anos 1960. O centro de pesquisa Luiza Gomes de Lemos tem algumas peculiaridades que ajudaram nessa difusão. “Uma delas foi a criação de uma escola para a formação de mão de obra especializada, técnicos especializados na leitura das laminas pro exame do Papanicolau” conta Rosana. Centro que ainda forma profissionais, agora sobre direção do Instituto Nacional do Câncer (INCA).

O trabalho das Pioneiras Sociais ao criarem uma escola de citopatologia, que capacitava técnicos a lerem as lâminas de Papanicolaou, popularizou esse exame. Segundo a pesquisadora, na época “o exame Papanicolaou fez com que a atividade de prevenção fosse atinente à saúde pública”. Nas décadas de 1940-1950, os exames uterinos eram feitos por meio de colposcópios, restrito aos consultórios médicos.

Durante o desenvolvimento do centro de pesquisa, as Pioneiras Sociais começaram a lançar várias campanhas. “Por exemplo, a campanha Saúde sobre Rodas, uma campanha onde ônibus volantes iam fazer os exames em lugares mais distantes, fazendo uma espécie de busca ativa da população” conta Rosana. Esses exames coletados eram levados ao centro de pesquisa para que fossem feitas as leituras das laminas.

A pesquisadora também fala em sua pesquisa sobre o fato da Fundação das Pioneiras Sociais ser umas das instituições que mais ajudou a atingir parcelas da população que não tinham acesso a exames ginecológicos.

“Muita coisa foi feita pelas Pioneiras Sociais, como a campanha Citologia ao Alcance do Médico do Interior” explica Temperini. Nesta campanha, equipes da Fundação enviavam kits para os médicos colherem o material de mulheres no interior do país. Esse material colhido era enviado por meio dos correios para o centro de pesquisa, que dava o resultado dos exames.

Isso tudo feito dentro de um contexto social diferente do atual. “Existia nos anos 60 uma questão social das mulheres, dos maridos, era um tabu. Tinha uma questão moral em fazer um exame ginecológico” comenta a pesquisadora.

Aí entra outra parte do estudo onde se vê que a atuação do médico Arthur Campos da Paz era fundamental para o funcionamento da Fundação. Ele promovia palestras, cursos, ajudava a educar a população no âmbito da saúde pública. Por meio das ações em educação ele conseguia mostrar a importância de exames preventivos com a ajuda de assistentes sociais .

Ora, mas se trabalhos como este são feitos desde os anos 1960, então por que no Brasil ainda há tantas mortes por este tipo câncer? De acordo com a pesquisadora, porque o acesso continua sendo inviável para parte da população. Ela explica que o acesso de mulheres a exames preventivos em regiões como o Norte e Nordeste é muito mais complicado e envolve mais do que o fator econômico.

Por isso a necessidade desse recorte histórico. Assim será possível entender dentro do contexto da saúde púbica quais foram os avanços e os retrocessos desde a época das Pioneiras Sociais e que trabalhos feitos por esta fundação contribuíram para o entendimento dessa doença como um problema de saúde pública.

design manuela roitman | programação e implementação corbata