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Da bancada para o leito: UFRJ se junta à Marinha em estudo translacional

Luisa Picanço

O Laboratório de Bioquímica e Biologia Celular de Glicoconjugados do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, comandado pelo professor e bioquímico Mauro Pavão, já estuda desde os anos 1990 as ações anti-inflamatória, anti-metastática e anticoagulante dos análogos da heparina encontrados em invertebrados marinhos como a Ascídia - conhecida como batata-do-mar - e o pepino-do-mar.

Após uma expedição à Antártica em parceria com a Marinha em busca de análogos da heparina diferentes para estudos laboratoriais, a equipe do professor Mauro Pavão, conduzida pela doutora Mariana Stelling, iniciou uma parceria com o Instituto de Pesquisa Biomédica da Marinha para realizar um estudo translacional – estudo que tem início na ciência básica e conclusão na aplicação prática do conhecimento – a utilização terapêutica no combate de células tumorais com análogos da heparina.

Na parte da ciência básica, o grupo observará se os níveis de manganês nos tecidos humanos está associado à presença de tumores. No caso da pesquisa, o estudo tem foco em adenocarcinoma de cólon, de acordo com o INCA, o terceiro tipo de câncer mais comum no mundo entre homens e o segundo mais comum entre mulheres.

O laboratório viu em experiências in vivo que o aumento da malignidade dos tumores está diretamente relacionada com o aumento dos níveis de manganês no sítio do tumor. Isso porque o manganês é importante para o processo de migração das células. Para o tumor crescer e se desenvolver, ele precisa migrar de célula. Isso acontece graças à ativação das integrinas por seus ligantes, proteoglicanos de heparam sulfato e por cátions divalentes, como o manganês.

Ao colocar no meio celular análogos da heparina externos, o manganês se une a esses análogos e isso diminui a quantidade de manganês para a tríade que gera a migração celular, podendo retardar ou inibir um processo invasivo.

Com base nesse conhecimento, o projeto foi apresentado ao Serviço de Patologia e as Clínicas de Coloproctologia e Oncologia do Hospital Naval Marcílio Dias e a partir disso está em andamento uma nova etapa: fazer um estudo retrospectivo em peças histológicas de pacientes do hospital que estão armazenadas há 40 anos. Um banco de dados que serve para avaliar a informação dos pacientes com adenocarcinomas e os cortes histológicos dos seus tumores.

As peças histológicas são levadas à equipe da Professora Simone Cardoso do Instituto de Física da UFRJ. Lá é feita a quantificação dos elementos fundamentais do tecido, incluindo a quantidade de manganês nas células dos cortes. Após esse processo, será feito um mapeamento multi-elementar no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, sob a supervisão do Dr. Carlos Perez, e esta análise revelará a distribuição de manganês no tecido tumoral.

A ideia é que todo esse processo seja ligado ao histórico de cada paciente, levando em consideração critérios como a quantidade de manganês presente em um tumor, se de fato existe manganês nas células daquele paciente, se após a retirada de um tumor o manganês continua a aparecer. No último caso, por exemplo, seria possível avaliar a necessidade de uma quimioterapia específica para evitar uma reincidência do tumor.

Esses serão os próximos passos, os chamados estudos prospectivos, quando o grupo espera descobrir que tipo de abordagem terapêutica pode-se tomar com cada paciente.

A última etapa será avaliar se os análogos da heparina, caso seja confirmado a ausência de toxicidade e efeitos colaterais importantes desses elementos no organismo humano, podem ser usados como tratamentos coadjuvantes aos tratamentos terapêuticos atuais.

Professor Mauro Pavão e Dr Marcelo Ieal 

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