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Pesquisa investiga metilação do DNA e câncer de colo uterino

O DNA de amostras de diferentes graus de lesão do colo uterino foi analisado pela pesquisadora Thaís Messias Mac-Cormick, da UFRJ, durante seu mestrado defendido em fevereiro de 2015. O objetivo deste trabalho foi a análise da metilação de genes supressores tumorais. A metilação é um mecanismo epigenético que acontece no DNA e faz com que alguns genes sejam silenciados.

Thaís estudou a metilação dos genes do retinoblastoma (RB1) e da E-caderina (CDH1) nas lesões cancerosas e pré-cancerosas de colo uterino. O trabalho foi orientado pela professora Maria da Glória da Costa Carvalho, do Programa de Oncobiologia da UFRJ, e a defesa ocorreu em fevereiro de 2015.

“Analisamos amostras em diferentes graus de lesão do colo uterino: as de baixo grau, as de alto grau, que são precursoras do câncer, e as cancerosas. Usamos também amostras controle, que não tinham lesão nesta área. Para isso, pegamos amostras de escovado, de exame de papanicolaou, de mulheres atendidas no hospital Moncorvo Filho”, explica Thaís.

“Os genes que selecionamos para estudar, o RB1 e o CDH1, são interessantes para trabalhar com metilação. O RB1 é bastante descrito na literatura porque, junto com o vírus HPV, ele gera uma situação precursora para o câncer de colo uterino. Já a E-caderina é uma proteína de adesão que inibe a metástase e invasão local das células tumorais”, esclarece a estudante.

A infecção pelo HPV é um pré-requisito para o câncer de colo uterino, apesar de não ser a causa única. A infecção genital por este vírus é comum e, na maioria das vezes, não gera consequências graves. Porém, alguns tipos de HPV podem gerar lesões celulares que evoluem para o câncer.

“Existem oncoproteínas do HPV, a E6 e E7, que são transcritas por genes localizados no genoma circular dos vírus HPV e são associadas ao desenvolvimento de lesões precursoras graves e do próprio câncer cervical. Já se sabe que a E7 interage com a proteína expressa pelo gene RB1, que é um supressor tumoral. Investigamos se essa situação ocorria também em nível de DNA”, explica Thaís.

“Além de analisar a expressão do RB1 e do CDH1, observamos se as células lesionadas ou tumorais expressavam DNA metiltransferase, que é uma proteína que faz essa metilação do DNA, e a p53, que é um outro supressor tumoral. Conseguimos achar essas proteínas em todas as amostras estudadas. As proteínas do HPV geram metilação porque aumentam a produção de DNA metiltransferase”, continua. O trabalho detectou também – através do método da imuno-histoquímica - a mutação do gene p53, o que confere um pior prognóstico.

Durante a análise das células do colo uterino, a pesquisadora encontrou também o vírus do Espstein-Barr (EBV), que é mais relacionado a câncer gástrico e linfomas de forma geral. “Este vírus não foi a principal causa da severidade do câncer de colo uterino, mas atua como um co-fator em conjunto com o HPV”, afirma Thaís.

“Encontramos a E-caderina e a pRb, que é a proteína do retinoblastoma, nas amostras, mesmo quando os genes estavam metilados, o que não esperávamos encontrar. Isso mostra que aquele microambiente tumoral é muito heterogêneo. Pode ser que algumas células estavam com os genes metilados e outras não. Outra possibilidade é um alelo do DNA conseguir transcrever e o outro não, na mesma célula”, continua.

Outro dado relevante desta pesquisa é que, nos coilócitos (células que são uma marca da infecção pelo HPV), não foram encontradas proteínas p53 e DNA metiltransferase, que era algo que se esperava ser detectado. Este dado ainda não foi descrito na literatura e é algo que precisa ser discutido.

O câncer de colo uterino, também chamado de cervical, é o terceiro tumor mais frequente na população feminina brasileira e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil, de acordo com o Inca. Entender melhor a formação e desenvolvimento deste tumor é fundamental para a melhoria futura dos protocolos de tratamento.

Thaís ressalta a importância de que mais estudos sejam realizados no Brasil sobre o HPV. “A maioria da literatura sobre o HPV é estrangeira, mas quando fazemos a genotipagem do vírus aqui no Brasil, vemos que os tipos 16 e 18, que são de alto risco de câncer e os mais comuns mundialmente, não são tão prevalentes na nossa população. Na população que estudei, na cidade do Rio de Janeiro, o tipo de HPV mais comum é o 51. Ter um olhar mais local, neste caso, é muito importante para uma maior eficiência de vacinas e tratamentos”, finaliza.

Thaís Messias Mac-Cormick, pesquisadora que defendeu o mestrado em fevereiro de 2015.

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