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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Novo composto sintético contra câncer de mama

Claudia Jurberg e Priscila Biancovilli

A molécula LQB-223 é uma das novidades para a melhoria da eficiência de tratamentos contra o câncer. Um trabalho recentemente publicado por pesquisadores do Programa de Oncobiologia da UFRJ aponta tal composto como agente promissor para o tratamento de células leucêmicas quimiorresistentes. Porém, os efeitos da LQB-223 sobre outros tumores ainda são pouco conhecidos. É por esta razão que a pesquisadora Raquel Maia, coordenadora do Laboratório de Hemato-Oncologia Celular e Molecular do Inca, dedica-se à investigação da atividade antitumoral deste composto em células de câncer de mama. Em entrevista ao OncoNews, a cientista explica como surgiu a ideia de estudar a LQB-223 e quais resultados já foram alcançados até o momento.

OncoNews: Quando começou este trabalho?

Raquel Maia: Esse estudo começou a ser desenvolvido em nosso laboratório em meados do ano de 2013, quando inicialmente observamos que linhagens celulares derivadas de câncer de mama apresentavam a viabilidade celular reduzida quando expostas ao composto LQB-223.

OncoNews: O composto LQB-223 é inspirado em algo da natureza? Se sim, o quê?

Raquel Maia: Para desenvolvê-la os pesquisadores se basearam em pterocarpanos de origem natural, entretanto esta substância não pode ser chamada de pterocarpano devido a algumas diferenças estruturais. Então, nós chamamos de 11a-N-arylsulfonyl-5-carba-pterocarpans. Os pterocarpanos pertencem à classe dos isoflavonóides, que têm uma série de propriedades interessantes, como anticâncer, antiparasitária, antioxidante, inibidores de enzimas como COX-2, PLA-2 entre outras.

OncoNews: Quais foram os principais resultados até o momento?

Raquel Maia: Os experimentos realizados em nosso laboratório mostram que o composto LQB-223 tem apresentado consistente eficácia na indução de morte celular e inibição de proliferação em células derivadas de câncer de mama, independentemente do subtipo molecular. Além disso, os efeitos citotóxicos do LQB-223 nas células tumorais envolvem a modulação de vias de sinalização moleculares cruciais para a determinação de um fenótipo de quimiorresistência. De forma importante, células não neoplásicas de mama foram pouco sensíveis ao tratamento com o LQB-223, sugerindo que tal composto apresenta seletividade para células tumorais e que possa ser um fármaco em potencial a ser explorado terapeuticamente. Experimentos vêm sendo conduzidos a fim de investigar se o efeito antineoplásico do LQB-223 pode ser também observado em células tumorais de mama, resistentes a doxorrubicina, o qual pode causar toxicidade cardíaca e é comumente utilizado no tratamento do câncer de mama.

OncoNews: O que vocês aprenderam com a LQB-118 que está sendo útil nesse trabalho de agora?

Raquel Maia: O LQB-118 foi o primeiro composto bem sucedido testado pelo nosso grupo, e que resultou na publicação de quatro artigos científicos e um que está submetido à publicação. O trabalho com o composto LQB-118 deu início às colaborações entre os grupos do Prof. Paulo Costa, do NPPN da UFRJ, e continuidade de colaboração com a Profa Vivian Rumjanek, do IBqM/UFRJ, e foi importante para o fortalecimento das discussões, interações das três equipes e a formação de alunos de pós-graduação. Além disso, houve o estreitamento da colaboração com o Prof. Eric Lam, do Imperial College London, onde a Gabriela Nestal de Moraes vem trabalhando como pesquisadora visitante. A partir do aprofundamento do estudo dos efeitos da LQB-118 em células tumorais, foi possível levar adiante a importância da temática sobre o desenvolvimento de novos compostos anti-neoplásicos no Brasil e a contribuição para inovação na pesquisa contra o câncer.

OncoNews: O seu laboratório está testando outras moléculas além dessa LQB 223?

Raquel Maia: Sim. Em nosso laboratório, outros derivados de pterocarpanos vêm sendo testados em vários modelos de células tumorais – tanto leucêmicas quanto de tumores sólidos. O objetivo central é identificar os compostos que apresentem os efeitos antineoplásicos mais relevantes, porém com pouco efeito citotóxico para células normais, principalmente quando comparados aos agentes quimioterápicos já utilizados em protocolos clínicos. Além disso, e em paralelo, estamos desenvolvendo um estudo, em parceria com a Profa. Núbia Boechat e a Profa. Mônica Macedo, ambas da Fiocruz, sobre o efeito de novas moléculas inibidoras da tirosina quinase em células de leucemia mielóide crônica.

OncoNews: Quais são os grupos envolvidos? E quantas pessoas?

Raquel Maia: O trabalho conta com uma equipe multidisciplinar composta por grupos de pesquisadores do nosso laboratório, do Laboratório de Química Bio-orgânica, do Instituto de Pesquisas de Produtos Naturais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderado pelo Prof. Paulo R.R. Costa, e da Profa Camila Buarque da PUC, Rio de Janeiro. A pesquisa também conta com a colaboração do Prof. Eric W. Lam, do Imperial College London, no Reino Unido.

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