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Glioblastoma: novas hipóteses e caminhos no estudo da doença

O glioblastoma é o tumor cerebral mais comum em seres humanos, e caracteriza-se pela agressividade e rapidez com que invade o sistema nervoso central. Esta doença representa cerca de 25% dos tumores cerebrais e afeta, em especial, adultos entre 50 e 70 anos de idade. Por ser resistente às terapias atuais, apresenta alta letalidade.

Para compreender melhor determinadas características dessa doença que podem, no futuro, aumentar a sobrevida dos pacientes, os grupos de Helena Borges e Flavia Lima elaboraram recentemente um artigo, ainda a ser publicado, sobre a relação entre a proteína p53 e o crescimento do glioblastoma. Em entrevista ao OncoNews, as pesquisadoras do Programa de Oncobiologia e Deborah Biasoli, primeira autora do artigo, explicam alguns aspectos deste estudo.

Quando as pesquisas que resultaram neste artigo tiveram início?

Flavia Lima - Este estudo começou de fato numa colaboração da Helena comigo. Helena já trabalhava com p53 e câncer e eu com glioblastomas (GBMs) e células gliais. Não foi difícil pensarmos em projetos utilizando nossos conhecimentos em conjunto. Tivemos uma aluna de iniciação científica em comum, a Morgana Sobrinho, coautora deste artigo, que iniciou e trabalhou neste projeto durante os três últimos anos de sua graduação. Já no começo percebemos que realmente havia uma relação entre células tumorais e astrócitos via p53.

Como surgiu a ideia de relacionar a p53 ao crescimento do glioblastoma?

Flavia Lima - A proteína p53 tem participação importante na regulação do ciclo celular e, em consequência disso, no processo de morte celular. Mutações no gene p53 podem então levar ao câncer, justamente pela perda dessa função. Para se ter uma idea, mutações do gene p53 estão presentes em mais de 50% dos tumores humanos. O GBM é um tumor altamente agressivo e letal, de origem glial.

Além de a proteína p53 ter função no controle do ciclo celular e supressão tumoral, estudos mais recentes têm relacionado a proteína p53 a outros mecanismos celulares como migração, comunicação intercelular e organização de matriz extracelular. Foi aí que fizemos o link com astrócitos (componentes majoritários do microambiente desse tumor), pois esses estão envolvidos também nesses eventos e poderiam estar interagindo com GBM, favorecendo, por exemplo, a invasão desse tumor para o parênquima através da regulação da matriz extracelular. Mostramos no artigo que a p53 é peça fundamental nessa interação.

Qual a grande contribuição deste artigo para a literatura?

Helena Borges - Mostramos que há mais de uma forma de interação entre o microambiente e o tumor, que, infelizmente, é benéfica ao crescimento tumoral. Células de glioblastomas secretam moléculas que causam a redução da expressão de p53 em astrócitos normais.

Este astrócito, supostamente “normal”, mas que agora apresenta reduzida capacidade de expressar p53 (mesmo após danos de DNA), produz uma matriz extracelular mais rica em laminina e fibronectina. Esta matriz enriquecida resulta em menor morte celular da célula do glioblastoma quando cultivadas sobre essa matriz, em comparação à matriz controle. Além disso, tal matriz p53-deficiente também é capaz de aumentar a expressão de marcadores de fenótipo mesenquimal, possivelmente tornando a célula do glioblastoma mais migratória e resistente às terapias. Quando marcadores mesenquimais estão presentes nas células, isso muito provavelmente significa que esta célula tem maior capacidade migratória e invasiva, ou seja, maior potencial de malignidade.

De que forma esta pesquisa pode colaborar no tratamento contra o glioblastoma, no futuro?

Deborah Biasoli - Essa pesquisa pode colaborar para o tratamento de glioblastoma porque ela mostra um tipo de regulação molecular das células tumorais sob o ambiente a sua volta, favorecendo sua malignidade. Esse conhecimento molecular pode ser explorado para intervenções farmacêuticas no futuro.

Quais serão os próximos passos desta pesquisa?

Helena Borges -
Vamos investigar se possíveis moléculas produzidas pelas células tumorais poderiam ser responsáveis por esse efeito de espalhar a deficiênca em p53 nas células vizinhas ao tumor, e se tal efeito acontece in vivo em modelos de animais.

O artigo foi submetido à revista Oncogenesis (família da Revista Oncogene).

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