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Resveratrol pode ajudar proteína p53 a manter suas funções

A p53 é uma proteína conhecida como “guardiã do genoma”, porque age reparando danos no DNA. Por evitar que células defeituosas se multipliquem, ela é reconhecidamente um supressor tumoral. Danielly Ferraz, nutricionista e pós-doutoranda do Laboratório de Termodinâmica de Proteínas e Estruturas Virais, estuda as relações entre essa proteína e o resveratrol, principal composto bioativo encontrado no vinho tinto. A pesquisadora foi agraciada, em fevereiro de 2013, com a Bolsa Pro-Onco da Fundação do Câncer.

Apesar de ser umprotetora, a p53 pode sofrer mutações. Nesse caso, a proteína perde suas funções ou, até mesmo, torna-se oncogênica, estimulando o crescimento de tumores.

“Nosso grupo já vem, há alguns anos, estudando outro processo, que é o de agregação celular. Observamos que a agregação intracelular da p53 pode tornar a proteína inativa”, explica Danielly.

O que é a agregação? À medida que são montadas, as proteínas p53 dobram-se sobre si mesmas e assumem formas específicas que definem suas funções. Alterações no gene da p53 levam a proteína a se enovelar de modo anormal, deformando até mesmo moléculas saudáveis da p53, que aderem gerando fibras inativas.

“O foco do meu trabalho é investigar se o resveratrol seria uma molécula capaz de impedir esse processo de agregação. Meu trabalho de doutorado foi mais focado na parte celular, ou seja, estudamos a ação dessa substância em células tumorais de mama e pulmão. Até hoje, nenhum trabalho na literatura científica demonstrou uma modulação direta da p53 por resveratrol. Agora no pós-doutorado, busco caracterizar uma possível interação entre essas duas moléculas, além do efeito anti-agregação do resveratrol”, afirma.

Algumas evidências indicam que o efeito anti-agregação pode existir. Fazendo medidas de espalhamento de luz a 320 nm, a cientista observou que, quando a p53 é colocada na presença de resveratrol (in vitro), há uma diminuição no espalhamento. Isso sugere que a agregação tenha se tornado menor.

“Também investigamos tal hipótese usando células. Trabalhamos com duas linhagens de tumores de mama. Uma expressa a p53 selvagem (normal), e outra expressa a p53 mutada. Vimos que existem agregados nas duas células. Na célula que expressa a proteína selvagem, esses agregados estão espalhados tanto no núcleo quanto no citosol. Já na célula que expressa a p53 mutada, os agregados estão mais concentrados no núcleo”, explica Danielly.

Nos experimentos in vitro, houve diminuição da agregação nos dois tipos de p53. Porém, com a p53 mutada, parece que menos resveratrol foi necessário para alcançar tal efeito.

“Além disso, começamos recentemente a realizar ensaios de ressonância magnética nuclear para avaliar uma possível interação entre a proteína e o resveratrol, mas ainda não temos resultados concretos”, diz a pesquisadora.

Não se pode dizer ainda que o resveratrol se tornará um quimioterápico no futuro. Ainda há um caminho muito longo de pesquisas pela frente. Porém, já é possível afirmar que a quantidade de resveratrol necessária para combater a agregação intracelular da p53 é uma quantidade que, infelizmente, não conseguimos obter via alimentação. Muitos estudos clínicos investigam a possibilidade do uso do resveratrol na forma de suplemento.

“Considerando que o organismo humano não é capaz de sintetizar, nem armazenar resveratrol, o que eu recomendo é uma ingestão moderada, porém frequente de vinho tinto (1 cálice por dia), para que nossos tecidos sejam constantemente expostos ao resveratrol.”

Danielly Cristiny Ferraz da Costa, pesquisadora agraciada em 2013 com a Bolsa Pro-Onco da Fundação do Câncer

 

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