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Resistência a múltiplas drogas: um desafio no tratamento do câncer

Um estudo publicado em julho de 2013 na revista Molecular and Cellular Biochemistry, de autoria de pesquisadores do Laboratório de Imunologia Tumoral (IBqM-UFRJ), dedicou-se à investigação da linhagem tumoral FEPS. Trata-se de uma linhagem desenvolvida no próprio laboratório a partir de células de leucemia mieloide crônica humana, e que possui um alto nível de resistência a diferentes quimioterápicos. O processo de desenvolvimento e caracterização da linhagem durou cerca de oito anos, e o trabalho objetiva oferecer um novo modelo experimental que sirva como alternativa para melhorar as estratégias de tratamento de tumores resistentes a múltiplas drogas. Nesta entrevista, dois dos autores da pesquisa, os pesquisadores Flavio Eduardo Pinto-Silva, que desenvolveu a linhagem e Nathalia Daflon, que ajudou a caracterizá-la, explicam alguns detalhes do estudo.

1) Quais são os principais resultados do estudo?

O fenômeno de resistência a múltiplas drogas (conhecido como MDR) é atualmente o principal entrave ao tratamento quimioterápico do câncer. Quando ele ocorre, o paciente deixa de responder não só ao quimioterápico que está sendo utilizado, mas também a vários outros quimioterápicos que não são relacionados quanto a sua estrutura ou mecanismo de ação, dificultando ou, na maioria das vezes, inviabilizando o tratamento. Para estudar este fenômeno, vários grupos desenvolvem linhagens tumorais com as características de resistência a múltiplas drogas. No Brasil, a primeira linhagem MDR, utilizada por vários grupos para estudos de resistência, a Lucena-1, também foi desenvolvida pelo Laboratório de Imunologia Tumoral.

A linhagem FEPS possui um nível de resistência a diferentes quimioterápicos muito maior que a linhagem Lucena-1, inclusive ao quimioterápico Mesilato de Imatinibe (um quimioterápico que tem como alvo, uma característica "específica" da leucemia mieloide crônica e, atualmente, primeira escolha na clínica). Essa resistência está principalmente relacionada a superexpressão e atividade da proteína de resistência a múltiplas drogas, chamada Glicoproteína P, ou Pgp ou ABCB1, que transporta os quimioterápicos para fora das células tumorais, tornando-os inefetivos. A FEPS expressa também outros mecanismos de transporte e várias outras características. Além disso, as células resistentes têm a velocidade de duplicação menor que a célula sensível (K562) e essa velocidade é inversamente proporcional ao nível de resistência.

2) Como a linhagem FEPS foi desenvolvida?

A FEPS é uma célula resistente a múltiplas drogas. Ela foi selecionada a partir da linhagem K562, que é uma célula de leucemia mieloide crônica humana. Semelhante ao que ocorre durante o tratamento de pacientes, a K562 foi exposta a doses crescentes de um quimioterápico, muito usado na clínica, chamado Daunorrubicina, até que fossem selecionadas células resistentes a esse quimioterápico. Essas células se mostraram resistentes a vários quimioterápicos não relacionados. O processo de geração e estabilização da resistência pode levar muito tempo.

3) Explique um pouco da metodologia do estudo. Foram feitos testes em animais, por exemplo?

Não foram feitos testes em animais. As células da linhagem FEPS foram caracterizadas em cultura de células em laboratório. Os métodos utilizados para caracterizar essa células foram citometria de fluxo, testes de viabilidade a vários quimioterápicos, silenciamento de proteína por RNA de transferência (ou silenciador). Além da caracterização, esse trabalho visa compreender as diferenças entre células selecionadas por diferentes quimioterápicos e as alterações que ocorrem na célula tumoral quando ela é exposta continuamente a um determinado quimioterápico.

4) Outros grupos de pesquisa utilizam a FEPS atualmente?

Além do nosso grupo, somente o grupo do Dr. Miguel Angelo Moreira, da Divisão de Genética do Inca, tem resultados com essa linhagem. Mas vários grupos demonstraram interesse na linhagem, porém era necessário que o trabalho fosse publicado primeiro. Agora vamos disponibilizar a linhagem para os grupos interessados!

Dados do estudo

Título: Characterization of a multidrug-resistant chronic myeloid leukemia cell line presenting multiple resistance mechanisms

Autores: Nathalia Daflon-Yunes, Flavio Eduardo Pinto-Silva, Raphael Silveira Vidal, Bruna Fortunato Novis, Tandressa Berguetti, Raphael Rodrigues Soares Lopes, Carla Polycarpo, Vivian M. Rumjanek.

Flavio Eduardo Pinto-Silva e Nathalia Daflon-Yunes, pesquisadores do Laboratório de Imunologia Tumoral do Instituto de Bioquímica Médica (UFRJ)

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