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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Nanorradiofármacos são promessa para diagnóstico e tratamento do câncer

A nanociência e a nanotecnologia têm sido reconhecidas como áreas com potencial para propiciar grandes benefícios à sociedade, por exemplo no desenvolvimento de novos medicamentos, na despoluição da água e do ar e no aperfeiçoamento das tecnologias de comunicação e de informação, entre outros aspectos. O pesquisador Ralph Santos-Oliveira, do Programa de Oncobiologia, integra um dos raros grupos de pesquisa de toda a América Latina que trabalha com nanorradiofármacos para fins de diagnóstico e terapêutico. Esta tecnologia é bastante utilizada tanto para diagnóstico quanto para terapia do câncer.

 

O projeto de Ralph aborda o desenvolvimento de dispositivos nanométricos para quantificação, transporte e liberação controlada de radiofármacos. O espectro da pesquisa vai desde a etapa de simulação computacional, através de modelos matemáticos, sistemas de apoio à decisão baseados em técnicas de inteligência computacional e computação de alto desempenho, até a síntese dos dispositivos, avaliação toxicológica e potenciais aplicações analíticas, como o uso de aptâmeros (uma cadeia de nucleotídeos que se liga facilmente a uma molécula específica do corpo).

 

Nesta conversa, Ralph explica em que consiste sua pesquisa e quais são as perspectivas para os próximos anos.

 

Você já trabalha com radiofármacos há muito tempo, mas recentemente optou por estudar essa tecnologia como aliada no combate ao câncer. Por que essa decisão?

 

Decidi trabalhar com câncer após a morte da minha tia, em 2010. Lá em Recife, onde eu trabalhava, lidávamos mais com a questão industrial dos radiofármacos. Quando voltei para o Rio, para o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), que tem uma cooperação estreita com o Hospital Universitário da UFRJ, decidimos nos direcionar para a parte clínica. Após o falecimento da minha tia, migramos para o estudo de terapia e diagnóstico do câncer.

 

Por que a decisão de trabalhar, especificamente, com nanorradiofármacos?

Os radiofármacos são excelentes, mas têm problemas gravíssimos. Imagine uma pessoa com câncer nos ossos em metástase, por exemplo. A terapia convencional com radiofármacos seria, nesse caso, um paliativo para evitar a dor, mas causa uma mielossupressão muito grande, o que leva a uma debilidade do paciente. Cabe lembrar que essa é uma terapia suplementar, ou seja, o doente se submete ainda a outros tratamentos, como a quimioterapia, radioterapia, entre outros.

 

Observamos que os tratamentos paliativos causam muitos danos ao paciente. Após estudos voltados para o câncer ósseo, feitos em ratos, chegamos à conclusão que se a gente conseguisse pegar uma estrutura radioativa e transformar em uma escala nano que parasse no 1º quarto da estrutura óssea, ela não causaria mielossupressão. Fazendo isso, tivemos um aumento de efetividade de 70%, o que supera a eficácia do tratamento convencional.

 

Vocês já desenvolveram pesquisas com outros tipos de câncer?

 

Sim. Depois do sucesso do uso dos nanorradiofármacos com câncer ósseo, decidimos migrar nossas pesquisas para o estudo dessa doença. No caso do câncer de cabeça e pescoço, também tivemos sucesso. A taxa de penetração dos radiofármacos convencionais no cérebro é de 0,6%, o que é muito pouco. Com as nanopartículas, evoluímos para 6%. Assim, conseguimos também reduzir a dose aplicada no paciente em 10 vezes, o que causa menos problemas a ele, poupando-o de receber uma radiação excessiva e desnecessária. Esse nanorradiofármaco serve para o diagnóstico da doença.

 

Vocês planejam criar novos nanorradiofármacos?

 

A pesquisa em radiofarmácia é complicada, porque temos que desenvolver o radioisótopo certo acoplado ao vetor certo. O desenvolvimento de radioisótopos ainda está vinculado exclusivamente à CNEN.

 

Estamos agora desenvolvendo dois tipos de vetores biológicos para hipóxia cerebral, que é um mecanismo para detectar câncer cerebral. Além disso, criamos também nanorradiofármacos para diagnóstico de leucemia, câncer ósseo e câncer de mandíbula, que pretendemos patentear.

 

E existem cooperações com outros grupos de pesquisa?

 

Estamos muito abertos a cooperações. Caso alguém desenvolva uma substância nova e queira testar, pode vir até nós. O que fazemos normalmente é marcar essa substância com um elemento radioativo e injetá-la em ratos saudáveis e doentes, acompanhando assim sua biodistribuição dinâmica. Só no ano passado, fizemos mais de 60 análises para todo o Brasil. Aqui no Rio, trabalhamos com quase todos os grupos de câncer que conhecemos. Infelizmente, a cooperação com a UFRJ é baixa, e temos dificuldade em estabelecer isso. Gostaríamos de criar mais parcerias com pesquisadores do Programa de Oncobiologia.

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