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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Pesquisa investiga mieloma múltiplo em busca de tratamentos mais eficazes

Priscila Biancovilli

O Mieloma Múltiplo (MM) é a segunda neoplasia hematológica mais comum no mundo, com cerca de 20 mil novos casos por ano. O pesquisador Helio Dutra, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, coordena um projeto que visa compreender a imunobiologia da doença, para que se consiga tratar os pacientes de forma mais eficaz.

Um dos protocolos mais efetivos atualmente para o tratamento dessa doença é o transplante autólogo de medula óssea. “O paciente faz uma quimioterapia em altas doses, que reduz a massa de células tumorais, e depois as células tronco são reinfundidas no paciente. Esse tratamento aumentou a sobrevida média do paciente de três para mais de cinco anos”, afirma o pesquisador. Porém, constata-se que a doença continua incurável, pois, a despeito de cerca de 30% dos pacientes não apresentarem doença após o transplante, a recaída é universal em diferentes períodos de tempo. Mesmo entre aqueles que sofrem recidivas existem diferenças, porque alguns vivem por mais anos que outros.

Estudar os pacientes que fazem o transplante de medula e entender como estão as células do sistema imune deles poderá explicar porque alguns pacientes sobrevivem por mais tempo. Um trabalho desenvolvido pelo Dr. Roberto Magalhães, do HUCFF, que faz parte da equipe deste projeto, já concluiu que os pacientes que sobrevivem por mais tempo apresentam menor taxa de linfócitos T-reguladores, que suprimem a resposta imunológica. “Outra pesquisa do nosso grupo verificou que, dependendo do protocolo de coleta das células tronco hematopoéticas para o transplante do paciente, o enxerto poderá apresentar diferença na quantidade linfócitos. Buscamos entender se a qualidade e/ou quantidade destas células no enxerto também pode afetar o tratamento”, explica.

Outro objetivo do trabalho é elaborar um esquema de imunização que faça com que o sistema imunológico do paciente destrua com mais eficácia as células tumorais. “Por isso estudamos as células dendríticas. A função delas é processar antígenos e apresentá-los para outras células do sistema imunológico - os linfócitos. Observamos que os pacientes que fazem uso dos medicamentos Talidomida e Dexametasona como manutenção após o transplante, têm uma quantidade de células dendríticas que se assemelha à de indivíduos saudáveis. E, aparentemente, a biologia dessas células não está comprometida. O mesmo não acontece com os pacientes com câncer em atividade os quais não passaram pela quimioterapia, nesta fase as células dendríticas estão alteradas e podem apresentar baixa resposta estimulatória”, explica.

Nesse momento, os pesquisadores direcionam seus estudos para os linfócitos. Os primeiros resultados do grupo revelaram que a capacidade de produzir células dendríticas não se altera muito nos pacientes que foram transplantados, mas ainda não se sabe se a qualidade dos linfócitos estimulados por estas células dendríticas é diferente entre os pacientes.

Além dessa, outra linha de trabalho consiste em fusionar a célula tumoral com a dendrítica, objetivando desenvolver um tratamento que estimule a resposta antitumoral. Esse novo híbrido fará com que o tumor seja “apresentado” ao sistema imunológico pela própria célula. “A vantagem desse processo é que a célula híbrida pode apresentar qualquer antígeno, porque eles serão produzidos dentro dela. Para o futuro, nossa proposta é criar vacinas compostas 100% por essas células fusionadas. Queremos chegar a uma vacina que seja a mais efetiva possível e sirva como complemento ao tratamento da doença, prolongando a vida do paciente”, afirma Helio.

O que é o Mieloma Múltiplo?

O Mieloma Múltiplo (MM) é um tipo de câncer que se desenvolve na medula óssea, provocado pelo crescimento descontrolado de células plasmáticas. Essas células malignas podem se acumular na medula óssea ou se espalhar para o interior dos ossos. Como as células plasmáticas são responsáveis pela produção de anticorpos, o paciente apresenta em seu sangue grande quantidade de anticorpos clonais, ou seja, de um único tipo. A quantidade de anticorpos de outros tipos, naturalmente produzidos pelo organismo saudável, diminui drasticamente.

Muitos portadores do MM apresentam sintomas como dor, aumento da taxa de cálcio no sangue, alterações renais, anemia e lesões ósseas. As lesões no osso podem causar fraturas em regiões delicadas, como a coluna vertebral e o fêmur. A anemia é causada porque a ocupação da medula pelas células doentes impede a adequada produção de hemácias.

Projeto

Participam do projeto dois professores do Serviço de Hematologia do Hospital Universitário da UFRJ, além de dois professores do Instituto de Ciências Biomédicas e um pesquisador da FIOCRUZ. Três dissertações de mestrado já foram defendidas, e mais uma de mestrado e outra de doutorado serão defendidas em breve. A FAPERJ e O CNPq são financiadores deste projeto.

Célula híbrida produto da fusão de uma célula dendrítica (verde) e um plasmócito (vermelho)

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