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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Prêmio Faz Diferença 2012: Jerson Lima concorre nesta edição

O professor Jerson Lima Silva, membro do Programa de Oncobiologia da UFRJ, é um dos concorrentes ao Prêmio Faz Diferença, oferecido anualmente pelo jornal O Globo a personalidades de destaque em diversas áreas do conhecimento. Jerson é um dos maiores especialistas do Brasil no estudo de proteínas associadas a doenças neurodegenerativas e câncer. Com quase 140 artigos publicados, é um dos mais jovens membros da Academia Nacional de Medicina, além de pertencer também à Academia Brasileira de Ciência. Somado a isso, o cientista é ainda diretor científico da Faperj há muitos anos. Nesta conversa, Jerson nos conta um pouco de suas pesquisas e das expectativas em relação à premiação, que acontecerá em janeiro de 2013.

Como você se sentiu ao receber a indicação?

Na realidade, eu não esperava essa indicação Eu já havia sido indicado ao prêmio em 2010. Confesso que, naquela edição do prêmio, torci muito pelo Jacob Palis, Presidente da Academia Brasileira de Ciências e um grande nome da ciência brasileira.

Essa indicação veio em função de uma pesquisa específica ou pelo conjunto da obra?

Este ano, creio que a indicação é pelo conjunto das minhas pesquisas. Em meados de 2012, saíram alguns importantes resultados, mostrando, por exemplo, evidências bem fortes de que a proteína p53, envolvida na proliferação celular, funcionaria como um príon.

A p53 normalmente existe em concentrações muito baixas na célula. Toda vez que a célula passa por algum tipo de estresse, a concentração dessa proteína aumenta, o que leva a uma série de respostas para reparar ou atenuar o dano. Algumas vezes, a p53 leva a célula à apoptose. Se essa proteína não funcionar corretamente, a célula perde o controle da divisão celular, o que leva à formação de tumores. Em 50% de todos os tumores existem mutações na p53.

Vimos que, quando acontecem várias dessas mutações, existe uma formação de agregados contendo tanto a p53 mutada como a sem mutação. Propusemos que poderia haver um mecanismo de transferência deste fenótipo célula-célula. Esses agregados da p53 não têm todas as características apresentadas pela proteina envolvida com a doença da vaca louca (por exemplo alta estabilidade, resistência a proteases e potencial infeccioso), mas funcionariam de forma semelhante, por outro lado, como tem sido proposto recentemente para o Parkinson e o Alzheimer.

Em 2012, continuamos com nossos estudos focados no resveratrol, que existe em grande concentração nas uvas e no vinho. O resveratrol tem sido estudado por diversos grupos no mundo e aqui na UFRJ, inicialmente, comparamos dois tipos de célula: um tumor de mama que tem a p53, e outro, um tumor de pulmão, que não tem a proteína. Descobrimos que o tumor de mama é muito mais sensível ao resveratrol, entrando em apoptose via p53. No tumor de pulmão, injetamos o gene da p53, e este passou a ser sensível ao resveratrol, entrando também em apoptose.

Você tem mais de 140 trabalhos publicados. De todos eles, quais tiveram mais impacto?

Um trabalho muito importante é o da inativação de vírus e príons por alta pressão, com potenciais aplicações. Junto com a Fiocruz, fizemos um trabalho inativando o vírus da febre amarela, por exemplo.

Uma descoberta importante que nosso grupo fez foi que a proteína do príon liga ácidos nucléicos com alta afinidade e que estes participariam como cofatores do processo de conversão da forma normal para a forma infecciosa. Hoje em dia, outros grupos também trabalham com isso.

No momento, os dois grandes blocos de pesquisas do meu laboratório são a p53 e a proteína do príon, todos envolvidos na questão do enovelamento protéico. Acreditamos que um alvo para impedir a evolução do câncer não é recuperar a proteína mutada, mas sim impedir que ela gere efeitos do tipo príon, “infectando” outras células.

Você é uma pessoa jovem e já ganhou muitos prêmios. Que mensagem você daria aos jovens biomédicos, para estimulá-los?

É preciso ter muita disposição e não desistir diante dos problemas, porque eles existem para todos. Essa é uma carreira muito competitiva, as pessoas se comparam, os artigos enviados para revistas voltam e é difícil publicar. Acredito que os jovens tenham que vestir a camisa e ter uma estratégia positiva de lidar com algumas destas circunstâncias.

Por mais que a crítica a um trabalho pareça injusta, acredito que a gente sempre aproveita alguma coisa para melhorar nossos estudos. Além disso, uma das partes mais bacanas da atividade científica é estudar e ter a confirmação do seus resultados. Afinal como disse pasteur há mais de 150 anos atrás “maravilhar-se é o primeiro passo para o descobrimento”. 

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