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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Compostos retirados da Embaúba no tratamento do câncer

A equipe da professora observou em laboratório que essas substâncias conseguem matar diversas linhagens tumorais, como mama, pulmão e leucemia mieloide crônica, que os quimioterápicos tradicionais têm dificuldade de atingir. Para entender um pouco mais esse estudo, conversamos com Gleice da Graça Rocha, aluna de doutorado da professora Cerli.


Como foi o trabalho desenvolvido no seu doutorado?


Durante o meu doutorado observamos que uma série de triterpenos consegue matar linhagens resistentes a múltiplas drogas. Então, procuramos descobrir como funciona esse processo. Começamos estudando a proteína Pgp/ABCB1, um dos fatores que confere à célula tumoral resistência múltipla às drogas. Focamos no estudo do ácido 3ß-acetil tormêntico, que é um dos triterpenos isolados da Embaúba. Queríamos descobrir como esse ácido atua ao matar células que superexpressam Pgp.
Descobrimos que o 3ß-acetil tormêntico não é substrato para a Pgp. Incubamos a linhagem resistente a múltiplas drogas Lucena (desenvolvida no laboratório da professora Vivian Rumjanek) e que superexpressa essa proteína com um substrato fluorescente da Pgp. Se colocarmos o inibidor da Pgp, o substrato não vai mais ser bombeado para fora da célula, como acontecia antes. Se essa proteína estivesse em pleno funcionamento, “jogaria” todo o substrato para fora da célula. É isso o que acontece com os quimioterápicos, quando entram em células que superexpressam a Pgp. O nosso triterpeno mata a Lucena, mas não inibe a atividade da Pgp.
O interessante é que vários quimioterápicos usados atualmente são substratos para a Pgp, e o nosso não é. Ou seja, ele é capaz de matar a célula tumoral “driblando” a resistência múltipla às drogas causada pela Pgp.


O 3ß-acetil tormêntico é eficaz também contra outros mecanismos de resistência múltipla às drogas?


Sim, esse ácido age também contra outras proteínas de resistência múltipla às drogas, as MRPs. Descobrimos que o 3ß-acetil tormêntico consegue bloquear de forma bastante potente e significativa o funcionamento das MRPs. Os quimioterápicos Doxorrubicina e Vincristina, que normalmente não matam as células que superexpressam essas proteínas, passam a funcionar quando incubados junto com o 3ß-acetil tormêntico.


Como agem as MRPs exatamente?

Essa proteína pode jogar o quimioterápico para fora das células, assim como faz a Pgp. Mas não apenas isso. Ela pode também expulsar das células quimioterápicos que estejam ligados a outras moléculas, como por exemplo à glutationa. A glutationa é um antioxidante presente também em células normais.
Assim, buscamos verificar se o 3ß-acetil tormêntico diminui os níveis de glutationa nas células tumorais, fazendo com que os quimioterápicos não sejam mais expulsos. E é exatamente isso o que acontece.
Além disso, o 3ß-acetil tormêntico inibe a expressão da enzima glutationa-S-transferase, responsável por unir o quimioterápico com a glutationa. Assim, os medicamentos não são mais expulsos da célula, aumentando a eficiência do tratamento.
 

Como foram feitos os testes até o momento?

Por enquanto só fizemos testes in vitro. O próximo passo é testar com animais. Não temos ainda uma previsão de quando serão feitos testes em humanos. Porém, alguns estudos já mostraram que compostos naturais são menos tóxicos ao organismo, se comparados aos sintéticos. Eles são mais toleráveis, ou seja, apresentam menos efeitos colaterais.

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