Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Estudo do Inca mostra risco das bombas

Helena Souto

 

Uma pesquisa liderada por um grupo do Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) e filiado ao Programa de Oncobiologia da UFRJ mostra que trabalhadores de postos de gasolina, os frentistas, podem possuir alterações cromossômicas em número mais elevado por conta da exposição aos compostos voláteis presentes na gasolina como o benzeno, tolueno e xileno (BTX). A equipe é liderada pela pesquisadora Ubirani Otero, da Coordenação de Prevenção e Vigilância do Inca (Conprev).

 

Um grupo de 45 frentistas de postos de combustíveis localizados nas zonas norte e oeste do Rio de Janeiro teve o sangue periférico coletado e, através da técnica de pintura de cromossomos, foi realizada a análise citogenética dos cromossomos 1, 2 e 4 dos linfócitos. Na realização da técnica, foram utilizadas três combinações de sondas fluorescentes de cromossomos para hibridizar com a amostra e identificar sequências específicas. Participaram também desse estudo a os pesquisadores Gilda Alves Brown (Inca), Maria Helena Ornellas (Uerj), o acadêmico de medicina Fábio Santiago (Uerj), Marianne Tabalipa (Inca), Nadezda Kosyakova e Thomas Liehr (Universidade Jena, Alemanha).

 

Os pesquisadores encontraram nove trabalhadores que possuíam duas ou mais alterações. "Existem casos de profissionais que não apresentam câncer, mas nos quais encontramos quatro tipos de alterações diferentes nos cromossomos. Não podemos garantir que esse profissional vá desenvolver um câncer, mas há um risco, ou seja, ele está numa situação perigosa”, alerta Brown. Dentre as alterações vistas estão translocações, monossomia, e deleções. Na monossomia, encontra-se apenas uma cópia do cromossomo ao invés de duas, diferentemente da deleção que resulta da perda de um segmento cromossômico e das translocações que são o rearranjo de fragmentos por cromossomos diferentes.

 

“Há mecanismos de defesa no organismo e isso é individual. Existem pessoas que irão trabalhar 30 anos no posto de gasolina e não terão câncer, mas outras vão. Queremos entender o que diferencia um do outro”, explica Brown. O próximo passo é estudar alguns genes do mecanismo de reparo de DNA dos frentistas que apresentaram grande número de alterações para entender a capacidade deles.

 

Além disso, o grupo do Inca pretende reunir os resultados dos estudos de outros integrantes do projeto para produzir um livro com dados sobre os aspectos da saúde dos trabalhadores no sentido de influenciá-los tanto mostrando os riscos quanto a importância de medidas protetoras.

 

Quem pensa que só os frentistas estão expostos aos riscos está enganado. Segundo Brown “os postos de gasolina se tornaram mini shopping. Isso quer dizer que as pessoas que abastecem, acabam ficando mais tempo nesses locais em função dos outros serviços como retirar dinheiro de caixas automáticas de bancos e das compras que farão. Isso também aumenta a exposição dos frequentadores dos postos de gasolina que é um ambiente insalubre” afirma. Além das substâncias voláteis, há outro problema. De acordo com a pesquisadora do Inca, não se pode esquecer o vazamento de gasolina para lençóis freáticos, mostrado em diversos estudos, e que contamina a água e nos expõe mais ainda.

 

Diferente da dinâmica dos postos dos Estados Unidos e países da Europa, no Brasil encontramos cerca de 500 mil empregados, segundo o sindicato. Além do número expressivo da classe, eles trabalham em diversas tarefas, o que aumenta a carga horária e o tempo de exposição ao benzeno, tolueno e xileno, que são substâncias tóxicas e carcinogênicas. As consequências desse contato podem ser claramente vistas como a irritação nos olhos. Já se sabe que, a longo prazo, o benzeno possui relação com a leucemia, linfoma, câncer de mama e doenças do trato respiratório.

 

design manuela roitman | programação e implementação corbata