Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

História da divulgação do câncer no Brasil e nos EUA

Priscila Biancovilli

Um artigo publicado em abril pela Revista Brasileira de Cancerologia investiga reportagens sobre câncer publicadas nos jornais Correio da Manhã e The New York Times, nos anos 1931-1932 e 1948-1949

O trabalho, que faz parte do projeto “História, Ciência, Educação e Saúde: as campanhas de prevenção do câncer no contexto do desenvolvimento da cancerologia no Brasil”,coordenado pelo professor da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Luiz Antônio Teixeira, evidencia as características das matérias jornalísticas sobre câncer em um jornal brasileiro e outro norte-americano. No período estudado, foram identificadas apenas 56 reportagens sobre o tema na mídia brasileira, enquanto no jornal americano encontraram-se 540 notícias. Tal fato mostra que, no período, o jornalismo nacional era bastante incipiente na abordagem do assunto.

Os períodos de 1931-1932 e 1948-1949 foram escolhidos pelo fato de o primeiro estar alguns anos antes, e o segundo, alguns anos após a criação do Centro de Cancerologia, atual Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), fundado em 1937. O jornal Correio da Manhã foi selecionado porque era um dos mais lidos na época, e empreendeu a mais ampla cobertura midiática sobre o tema. A escolha de um jornal americano, para comparação, deve-se ao fato de que, na época, muitos médicos brasileiros partiam para os EUA em busca de especialização. Além disso, o jornal é reconhecido internacionalmente pela sua excelência editorial.

Como o jornal Correio da Manhã não existe mais, o acervo original, preservado em formato de microfilmes, foi pesquisado na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Já a análise do The New York Times pôde ser feita pela Internet, pois eles disponibilizam todo o seu acervo online. A pesquisa também se voltou para a observação da quantidade e variedade de artigos científicos sobre câncer publicados em periódicos de excelência, através de busca no US National Library of Medicine – National Institutes of Health (PuBMed). O objetivo era avaliar se a mídia da época reproduzia resultados publicados por revistas científicas, como acontece atualmente.

Resultados

A maior parte das notícias sobre câncer no Correio da Manhã divulgava novas descobertas ou novos métodos de combate, tanto terapêuticos quanto cirúrgicos. Apenas uma dentre as 56 matérias encontradas no período noticiou exclusivamente um óbito relacionado à doença. Boa parte das reportagens era proveniente de agências de notícias, e os jornalistas se pautavam pelo impacto presumido que aquelas notícias poderiam gerar no público nacional. Matérias sobre os avanços científicos realizados em laboratórios e centros de pesquisa nacionais recebiam sempre um tratamento diferenciado, com maior espaço para a cobertura.

Considerando o NYT, o artigo mostra que, naquele período, o câncer já era considerado um tema relevante para a mídia norte-americana. Foram observadas desde exposições sobre o “pior flagelo” (20 de novembro de 1931) a técnicas como cirurgia, rádio e os raios X apontados “como os únicos agentes contra o câncer” (10 de outubro de 1931), até a síntese de uma substância química que, segundo a reportagem, era capaz de produzir tumores em animais (15 de janeiro de 1932). O jornal buscava alertar sobre a importância da prevenção e diagnóstico precoce.

A magnitude da divulgação de artigos científicos sobre câncer não era proporcional ao número de reportagens sobre o tema publicados nos dois jornais. Em 1931 e 1932 foram encontrados 99 artigos científicos sobre câncer no PubMed. O Correio da Manhã, no mesmo período, publicou 15 reportagens citando artigos, e o NYT, 240. Entre 1948 e 1949, houve uma explosão no número de artigos publicados sobre câncer: foram quase 6 mil. O Correio da Manhã, por sua vez, divulgou 41 notícias referenciadas a artigos, e o NYT, 300.

O artigo conclui que a quantidade de matérias publicadas no jornal brasileiro era extremamente pequena quando comparada à divulgação internacional, e se torna clara a ausência de reportagens mais personalizadas e aprofundadas. Já o NYT apresentou uma gama muitos mais diversificada de assuntos e reservou quantidade mais expressiva de espaço para a divulgação de notícias sobre o câncer.

Luiz Antônio Teixeira é pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz e foi credenciado como membro do Programa de Oncobiologia da UFRJ no último processo, e o artigo intitula-se “Perfis das Notícias sobre o Câncer no Correio da Manhã e no The New York Times nos Anos 1931-1932 e 1948-1949”. Este trabalho de Teixeira foi realizado em colaboração com o Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia e são coautores do artigo Claudia Jurberg, Marina Verjovsky e Gabriel Pereira.

Hoje, Luiz Teixeira desenvolve um novo projeto sobre a História do câncer em colaboração com o Inca. Denominado "História do Câncer - atores, cenários e políticas públicas" o projeto da continuidade ao resgate da história do controle da doença no Brasil.

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