Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Aliança das Américas contra o tabaco

Claudia Jurberg

Em maio se realizou no Rio de Janeiro o workshop regional “Non Communicable Disease”, cujo foco foram as doenças cardiovasculares e o câncer. Participaram do evento 12 diferentes Academias de Medicina de países do continente americano. Em relação à temática câncer, foram debatidas a prevalência, fatores de risco e estratégias adotadas para diminuir os índices de morbimortalidade como campanhas contra o tabagismo. O presidente da Academia Nacional de Medicina e coordenador do Programa de Oncobiologia, Marcos Moraes, trouxe dados animadores da luta antitabagista no país. Em sua conferência, fez um relato histórico e ressaltou o apoio, na atualidade, da presidente Dilma Rousseff e da mídia contra a indústria do tabaco nesses últimos anos. “No início, a mídia era bastante reticente, mas um importante marco dessa luta foi a divulgação pela revista Veja, em 1996, da adição de produtos como amônia nos cigarros para aumentar a dependência dos fumantes.

Moraes ressaltou alguns dos importantes passos dessa batalha. Entre os quais, o trabalho profundo de educação nas escolas, desde 1980, para evitar que os jovens sejam convencidos, pela industria tabagista, e se tornem novos dependentes. Hoje, este trabalho alcançou a marca de 14 mil escolas em todo o país; cerca de 118 mil professores e mais de 2 milhões de alunos. Moraes ainda contou que em 2003, houve a implantação de um comitê nacional com 18 diferentes setores para traçar uma política restritiva ao tabaco. “O maior desafio ainda é a interferência da indústria tabagista na política nacional”, disse. O problema é que o Brasil é o segundo maior produtor de tabaco e, em três estados do Sul do país, as plantações de tabaco ainda representam um importante item da agricultura nacional e de subsistência para muitas famílias.

Moraes ainda detalhou alguns marcos da campanha nacional como a proibição da propaganda nos meios de comunicação, em eventos esportivos e culturais; a proibição do uso de termos “light” nos maços de cigarro e a inclusão de imagens chocantes. E por último, contou sobre a última conquista agora em 2012 quando a Anvisa proibiu a adição de sabores nos cigarros. "Com toda essa campanha, frisou, a prevalência de fumantes no país é hoje menor do que 15%, diferente de 1989 quando o país tinha cerca de 37% de fumantes".
Pela América Central, o médico Joaquim Barnoya, da Guatemala, falou sobre a ausência de pesquisa nacional de prevalência do tabagismo. “Infelizmente, a falta desse dado não nós permite identificar qual é o exato número de fumantes, quantos éramos e qual o impacto das campanhas restritivas. Acreditamos que seja algo em torno de 25% entre os homens e só 3% entre as mulheres. Infelizmente, não há dados numéricos sobre ex-fumantes,” afirmou Barnoya. Barnoya explicou que a propaganda no país é regulamentada pela própria indústria tabagista. Não há propaganda nas televisões e nem nas rádios e outdoor, mas é muito popular nos pontos de venda. Curiosamente, a Guatemala é o único país do mundo onde não há imposto para a comercialização do tabaco. O imposto que há é só sobre a venda. Os políticos consideraram que uma bitributação como essa seria inconstitucional.

Outro aspecto negativo é que não há um programa nacional para cessação do fumo. “Se você deseja parar de fumar na Guatemala, será preciso ir ao menos a quatro farmácias até encontrar a terapia adequada e, quando a encontrar, esta custará o dobro do que um maço de cigarro. Soma-se a isso que não há um programa público contra o tabaco e o Estado não disponibiliza nem ao menos um serviço do tipo “Disque pare de fumar”.

No México, a situação é um pouco diversa. O médico Juan Verdejo explicou que há 10 anos se reconheceu o dano do tabaco à saúde e, em virtude disso, foi proibida a publicidade do tabaco em todos os meios de comunicação de massa e, posteriormente, em eventos esportivos. “Muitos dos eventos esportivos eram financiados pela indústria tabagista. Há cinco anos, inicialmente, na Cidade do México, e depois em todo o país a proibição de se fumar em locais públicos fechados. Com isso, o país conseguiu reduzir em 1,7% o número de fumantes nos últimos 10 anos. Hoje a taxa de tabagistas é de 22% da população. “Para nós, o ideal é alcançar uma sociedade livre sem tabaco nos próximos 10 anos.”

Para isso, há no México uma comissão específica que trata a questão em âmbito nacional. Os institutos nacionais de saúde no México como no Instituto de Doenças Respiratória têm programas públicos para apoio aos pacientes que queiram deixar de fumar. “O programa consiste principalmente de informação, terapia, medicamentos. Todos os programas são gratuitos”.

A luta contra o tabaco em Cuba é antiga, contou o médico Jose Fernandez-Britto. Há mais de 30 anos, foi iniciada com campanhas contra o fumo nas escolas, nos hospitais e no aeroporto. Hoje, os cinco canais de televisão, as emissoras de rádio, os jornais e revistas têm propaganda diária, esclarecendo a população que o fumo causa câncer de pulmão, infarto do miocárdio etc.

Dentre os cubanos, os índices são semelhantes a de outros países das Américas. Mais de 35% de respondentes de uma enquete nacional disseram que fumaram alguma vez na vida. Atualmente, 23,7% são fumantes, índice que apresentou uma queda significativa se for comparado a 1995 quando 36% da população cubana era de fumantes.

A presidente da Academia de Medicina de Nova Iorque, Jo Ivey Boufford, também trouxe dados sobre as campanhas contra o tabagismo nos Estados Unidos. Ivey mostrou que a cada campanha, houve uma queda expressiva no número de fumantes. Em 2002, quando se aumento as taxas dos cigarros, a percentagem de fumantes era de 21,5% entre a população; em 2003, quando se proibiu fumar em locais fechados, caiu para 19,2%; em 2009, com o aumento da taxação federal sobre os maços, o número de fumantes decresceu para 14,0%, mostrando que a política contra o tabagismo é essencial.

Um dos organizadores do evento, o acadêmico brasileiro Marcello Barcinsky, fez um balanço do encontro e disse que mais do que resultados específicos de cada país, o encontro foi produtivo no sentido de se discutir a percepção sobre o papel das academias de medicina de cada um dos países participantes. Segundo ele, “a interação entre as diversas academias pode ter um papel muito importante numa discussão mais ampla de como essas instituições podem se comunicar com seus respectivos governos e com o público em geral. Qual é de fato o papel das academias: é na prevenção, promoção, no tratamento ou diagnóstico?”, questionou Barcinsky. Já para Marcos Moraes, o importante do evento foi a possibilidade de se incrementar, a partir de agora, a parceria entre as academias, definindo desafios e estratégias para alcançá-los.
 

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