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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Interação entre pacientes com câncer e seus cuidadores

Pacientes terminais do Inca e seus respectivos cuidadores participam de um projeto da aluna de pós-doutorado do Programa de Oncobiologia da UFRJ, Ana Carolina Mendonça de Souza, desde julho de 2011. O trabalho inclui suporte social e relaxamento, com o objetivo de diminuir o estresse da dupla cuidador-paciente nos casos em que os pacientes se encontram em estágio avançado da doença, sem possibilidades de cura.

  

As duplas começaram a ser selecionadas em julho do ano passado, na área de cuidados paliativos do INCA. Uma parte dessas duplas aprendeu técnicas de massagens e respiração, que podem ser feitas em casa e aplicadas pelo cuidador no paciente ou mesmo pelo paciente no cuidador. O importante é que estes exercícios, que devem durar entre 15 e 30 minutos por dia, ofereçam relaxamento e interação positiva entre as duplas.

 

Em entrevista ao OncoNews, Ana Carolina explica os resultados de sua pesquisa até o momento. 

 

1) Quantas duplas de fato participaram do experimento até o fim? Quantas abandonaram no meio do processo?

 

Foram recrutadas 31 duplas para participar do estudo. Essas duplas foram distribuídas aleatoriamente (através de um sorteio) em dois grupos, um grupo chamado Intervenção e o outro Controle. O grupo Intervenção recebia as instruções e o treinamento dos exercícios no mesmo dia que era entrevistado, e o grupo Controle somente recebia esse treinamento após a quarta avaliação (aproximadamente 1 mês e meio depois  da primeira abordagem). Dessas, apenas 15 duplas completaram todo o estudo. A proposta foi acompanhar essas duplas em 4 avaliações médicas, ou seja, a partir do primeiro dia que eles chegaram ao HC-IV – unidade de cuidados paliativos do INCA -, caso eles decidissem participar do estudo, seriam avaliados nas próximas 3 consultas subsequentes. O intervalo entre as consultas poderia variar entre 7 e 20 dias, fazendo com que alguns pacientes fossem acompanhados apenas 1 mês e outros por até aproximadamente 2 meses e meio. Essa variação foi considerada uma limitação no estudo e será corrigida este ano.

 

A maior perda das duplas aconteceu entre a primeira e a segunda avaliação, e ocorreu por motivos diversos como: indisposição do paciente no dia da 2ª consulta (geralmente por excesso de dor), desistência do estudo, internação do paciente e óbito. É bom ressaltar que apenas 2 duplas de fato desistiram do estudo, as demais acabaram saindo por complicações médicas relacionadas à doença. Em um dos grupos (Controle) houve uma maior perda por óbito da amostra, porém isso ocorreu apenas entre a 3ª e a 4ª avaliação, ou seja no período final do estudo.

 

2) Como era feita a avaliação dos pacientes, durante cada consulta?

 

Durante cada avaliação, os pacientes deveriam responder a uma entrevista composta por questionários que avaliam a qualidade de vida e o nível de distúrbios do humor, avaliados através da análise dos níveis de fadiga, tensão, depressão, hostilidade, confusão e vigor. Além desses questionários, os pacientes também realizavam uma coleta de sangue para análise das células Natural Killer, um parâmetro do sistema imunológico que está fortemente relacionado com a qualidade de vida.

 

3) Quais foram os resultados mais relevantes até o momento?

 

Por ser o primeiro estudo desenvolvido nesta área no HC-IV, e considerando que no momento a amostra analisada ainda é pequena, estamos avaliando os resultados deste estudo como um estudo piloto, que fornecerá pistas sobre os possíveis achados e nos ajudará a melhorar toda nossa abordagem metodológica para uma nova etapa que será realizada ainda este ano. Os principais achados mostram algo muito interessante para o HC-IV. Todos os pacientes apresentam uma melhora importante nos níveis de distúrbios do humor (relacionado a uma diminuição na pontuação da escala de distúrbios do humor) e uma melhora também importante na avaliação de qualidade de vida (com um aumento na pontuação da escala de qualidade de vida). Esses resultados são iguais tanto para o grupo que participou do estudo realizando os exercícios de respiração e massagem, quanto para o grupo controle. O mesmo observamos para análise de células Natural Killer (NK), onde os pacientes de ambos os grupos apresentam um aumento no número de células NK entre o primeiro e o último dia de avaliação.

 

Esses resultados indicam que ocorre uma melhora na qualidade de vida dos pacientes tratados no HC-IV, que pode ser observada já nos primeiros dias de atendimento, e isso é muito importante, pois está em perfeita sintonia com a proposta da Unidade de Cuidados Paliativos (HC-IV).

 

Apesar de não termos encontrados dados consistentes que indiquem uma diferença entre os grupos (Intervenção e Controle), e que justifiquem a aplicação dos protocolos de relaxamento e massagem, acreditamos que alguns fatores podem ter contribuído para esta ausência de diferença, dentre eles, a variação muito grande no tempo em que cada dupla foi avaliada, a frequência com que cada dupla praticava os exercícios e o fato de termos tido pouca aderência por parte dos cuidadores, no momento de acompanhar ou auxiliar os pacientes na hora de realizar os exercícios. Novas análises deverão ser feitas para avaliar o impacto dessas possíveis limitações.

 

4) Você pretende continuar desenvolvendo este trabalho nos próximos meses ou anos?

 

Algumas correções para o procedimento e a metodologia aplicada já estão sendo feitas. Nossa proposta é alterar o que for necessário dentro da nossa interpretação e experiência com este estudo inicial e ter uma segunda etapa de estudo iniciando-se ainda neste semestre. Esperamos responder algumas questões que ficaram abertas sobre a efetividade dos exercícios de respiração e massagem em melhorar ainda mais a qualidade de vida desses pacientes. Também estamos interessados em buscar um aumento na adesão dos cuidadores, para que estes também possam ser avaliados durante o estudo.

Acreditamos que este conhecimento poderá nos ajudar a avaliar a melhora na qualidade de vida dos pacientes, e se possível, buscar formas de contribuir para que isso aconteça de forma rápida e acessível.

 

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