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Ética nas colaborações internacionais em pesquisa: como lidar com o diferente?

Priscila Biancovilli - 16/01/2012

Um artigo publicado recentemente por pesquisadores de dentro e fora da UFRJ lança luz sobre um tema muitas vezes pouco explorado na pesquisa brasileira: a ética nas colaborações internacionais. A produção de ciência pelos países emergentes, dentre eles o Brasil, cresce de forma exponencial nas últimas décadas. Para manter a qualidade e buscar constantemente a inovação, a maioria dos centros de pesquisa brasileiros busca cooperações internacionais, geralmente com países mais desenvolvidos. Porém, a convivência entre cientistas de diferentes origens culturais pode suscitar toda sorte de conflitos éticos.

Como surgiu a ideia

Uma das motivações para este artigo foi um aprofundamento da discussão atual sobre a crescente mudança no padrão geográfico de colaborações internacionais na ciência. Nesse panorama, é importante conhecer como a cultura e a ciência dialogam em diferentes contextos de pesquisa.  Esse tópico foi tema do livro escrito por Melissa Anderson e Nicholas Steneck, intitulado International research collaborations: much to be gained, many ways to get in trouble (Colaborações internacionais em pesquisa: muito a ganhar, muitas maneiras de ter problemas – em livre tradução para o português). “Eles tentaram identificar possíveis conflitos éticos que podem representar desafios nos diversos tipos de colaborações internacionais, que se tornam cada vez mais intensas na ciência. Nesse livro, eu, a professora Martha Sorenson, além de outros autores de culturas diferenciadas, apresentamos algumas peculiaridades do Brasil. Porém, o livro não aborda questões éticas específicas que merecem atenção especial no contexto da nova geografia da ciência, em particular para os jovens pesquisadores no  Brasil. É esse o tópico que abordamos no artigo, que  é também um desdobramento do trabalho que desenvolvi durante o pós-doc na área de integridade científica”, explica Sonia Vasconcelos, uma das autoras do artigo.


Assim, o artigo intitulado “The New Geography of Scientific Collaborations: Heating up na Ethics Melting Pot?”, aceito recentemente para publicação no EMBO Reports, sugere que parcerias cada vez mais estreitas entre países como o Brasil, índia, China e alguns do Oriente Médio, com países do G7, como Estados Unidos, Alemanha e Canadá, por exemplo, incluem inúmeras vantagens, mas também desafios ético-culturais que podem gerar pontos de conflito entre colaboradores.  Uma das perguntas que o trabalho tenta responder é que tipo de problemas éticos os pesquisadores brasileiros, especificamente, poderiam enfrentar num momento em que a ciência brasileira interage cada vez mais com parceiros internacionais das mais diversas culturas.

Artigo

O artigo discute inicialmente a relevância  que o assunto “ética” tem tido na academia nos últimos tempos, levando-se em conta as colaborações internacionais. Os autores ressaltam a importância do papel das universidades em abordar métodos adequados para a condução de pesquisa e em estimular as cooperações internacionais. “Em seguida falamos sobre o Brasil. Nosso país deve discutir este tema de alguma maneira. Dentro desse contexto, podemos sugerir alguns pontos específicos de conflito ético, como a atribuição de autoria científica, por exemplo, que tem se tornado um tema conflituoso também na maioria dos países. A atribuição de autoria torna-se uma potencial fonte de conflito dentro dessa nova rede de colaborações em ciência. Em países como o Japão, por exemplo, não é incomum o jovem pesquisador ter que obrigatoriamente inserir o nome do chefe do laboratório em seu artigo, mesmo que a participação dele inexista. Essas relações de autoridade podem ser olhadas com naturalidade por um lado, mas por outro, conflita claramente com os critérios de atribuição de autoria mais atuais. Na Austrália, por exemplo, esse tipo de atribuição pode ser atualmente considerado má conduta em pesquisa. Há também casos de jovens cientistas que desenvolvem uma pesquisa em uma universidade fora de seu país, voltam para casa e publicam seus resultados sem dar o devido crédito à instituição colaboradora. A questão é que várias práticas institucionais hoje entram em conflito com diretrizes editoriais que almejam uma internacionalização, mas que têm sido questionadas em alguma medida”, afirma Sonia.  
Outro ponto abordado pelo artigo é o plágio. Os critérios de julgamento não são muito bem estabelecidos ao redor do mundo. “Há cada vez mais casos de autores diversos acusados de plágio que simplesmente não aceitam a acusação, alegando que não agiram de forma anti-ética. De fato, não há um padrão universal, embora muitos entendam que seria desejável, que defina claramente autoria, crédito e plágio”, continua.

Próximos passos

Sonia, juntamente com os outros autores do artigo,  trabalha agora no desenvolvimento de uma pesquisa nacional sobre plágio, auto-plágio e redundância na ciência, que será lançada no início de 2012. Uma entrevista online será enviada a todos os pesquisadores doutores registrados no diretório do CNPq. Um dos objetivos é registrar tendências nas diferentes áreas e entender melhor o quanto conceitos e percepções éticas sobre os temas são compartilhados (ou não) no contexto internacional da pesquisa. 
“Se conseguirmos que 10% dos pesquisadores (o que, sabemos, pode ser difícil) respondam a entrevista, ficaremos felizes. A ideia é começarmos no Brasil e, em um segundo momento, estendermos a pesquisa a outros países, como Portugal, França, Inglaterra, Estados Unidos e China. Na verdade, já temos um projeto recentemente aprovado pelo CNPq que irá nos permitir essa ampliação.  Acredito que, dessa forma, obteremos  dados inéditos que podem ajudar muito esses países a desenvolverem políticas científicas mais realísticas sobre esse tema. O ideal é que países que estejam numa posição desfavorável nessa discussão possam ganhar voz com essa pesquisa. Nosso objetivo é explorar conceitos éticos que não são mecanicamente internalizados pelos cientistas. Vários desses conceitos parecem prontos, mas devem levar em conta as compreensões, as dificuldades e a cultura desses indivíduos”, finaliza a pesquisadora.
Esse artigo é uma colaboração entre professores da UFRJ (Sonia Vasconcelos, Martha Sorenson, Hatisaburo Masuda, Marisa Palácios e José Carlos Pinto) e os professores Nicholas Steneck, da Universidade de Michigan, EUA; e Melissa Anderson, da Universidade de Minnesota.

 

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