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Novo kit diagnóstico de doenças intestinais recebe patente

 

Novo kit diagnóstico de doenças intestinais recebe patente

 

Pesquisadores, do Programa de Pós-graduação em Ciências Morfológicas da UFRJ, depositaram um pedido de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A invenção consiste em um kit diagnóstico que, através de imuno-histoquímica, auxilia no diagnóstico diferencial entre a doença de Crohn  e a retocolite ulcerativa, dois dos principais tipos de doenças inflamatórias intestinais crônicas. 

 

A patente é parte dos resultados da doutoranda Rossana Soletti, orientada por Helena Borges do Instituto Ciências Biomédicas da UFRJ e afiliada ao Programa de Oncobiologia e contou ainda com a colaboração de Heitor Siffert de Souza, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na elaboração do kit.

 

“Geralmente, pacientes com doença de Crohn tem uma propensão menor de desenvolver tumores de cólon do que pacientes com retocolite ulcerativa. Por isso, saber se você tem uma doença ou outra é fundamental para conhecer a sua predisposição ao câncer, qual tipo de medicamento será mais eficiente e se você deve se submeter a uma cirurgia ou não. A retocolite é restrita ao cólon,por isso a cirurgia seria eficiente. Já a doença de Crohn pode acometer todo o trato grastrointestinal, incluindo o cólon ”, explica Helena Borges.

 

Muitos pacientes hoje em dia são diagnosticados erradamente, ou ainda não se consegue descobrir qual das duas doenças eles portam, devido à similaridade de sintomas entre as duas enfermidades. 

 

As doenças inflamatórias intestinais crônicas estão aumentando em incidência atualmente, em especial a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn. Existem poucos trabalhos no Brasil, e estes apontam para um aumento de incidência de Crohn e colite nas últimas três décadas. No mundo, os países em desenvolvimento têm mostrado um aumento na incidência dessas doenças, o que sugere que a urbanização seja um fator de risco. Algumas pessoas têm episódios recorrentes de diarreia durante toda a vida, e possuem maiores chances de desenvolver câncer, por terem o tecido intestinal em contínua cicatrização. 

 

A descoberta

Para explicar porque o grupo de pesquisa de Helena Borges começou a trabalhar com essas doenças, devemos voltar no tempo. Toda essa história começou durante o pós-doutorado dela, quando estudava o gene supressor do tumor retinoblastoma (Rb), que ataca a retina na infância. “Este gene foi o primeiro do gênero identificado pela literatura científica. A principal função descrita desta proteína é a de bloquear a progressão do ciclo celular. Quando a célula, em harmonia com o ambiente externo, resolve proliferar (para recuperar uma ferida, preencher um tecido, etc), existe uma ativação de cinases que vão levar à fosforilação deste Rb e, consequentemente, à sua inativação. Assim, a célula torna-se capaz de se proliferar. Na ausência desta proteína, a célula se prolifera indiscriminadamente. É assim que se desenvolve o tumor retinoblastoma”, esclarece Helena.

 

O grupo de pesquisa de Helena suspeitava que o Rb tivesse outras funções, além de bloquear a proliferação celular. “Notamos que a proteína Rb, além de ser fosforilada, também era clivada por caspases (ou seja, eram ‘cortadas’ por proteases). Mas para que isso aconteça, a célula deve receber um sinal externo. No caso, essas proteases só são acionadas quando a célula está prestes a morrer (apoptose). É o desbalanço entre morte e proliferação celular que favorece o desenvolvimento de câncer. Perguntamo-nos sobre o porquê de a célula clivar o Rb durante o processo de morte celular. Se essa proteína permanecesse na célula, ela interferiria neste processo?”, continua. 

Para responder a essas perguntas, os pesquisadores de seu grupo montaram um mutante específico, cuja proteína é fosforilada da mesma forma, mas possui dois aminoácidos diferentes da Rb original. Essa mutação, chamada de Rb-MI, faz com que a proteína não mais seja clivada por caspases, apesar de continuar controlando o ciclo celular normalmente. 

 

“Temos um camundongo cujas células expressam este Rb mutado. Percebemos que ele tem o intestino mais resistente à morte celular por processos inflamatórios”, afirma a professora.

 

Os pesquisadores passaram a se perguntar se o Rb é realmente importante no processo tumoral associado à inflamação do intestino. Eles começaram então a analisar biópsias de intestinos humanos e de camundongos – nestes últimos, foi induzida a inflamação e a tumorigênese, comparando o gene selvagem (Rb presente na natureza) com o mutado (Rb-MI). 

 

“O que vimos foi surpreendente. O padrão de tumorigênese continuou parecido. A célula alterava moléculas diferentes para alcançar este mesmo padrão.Começamos a ver que várias proteínas tinham a função de inibir a morte celular mediada por TNF, uma das principais citocinas inflamatórias”, explica. 

 

Graças à ajuda de Heitor Siffert do Hospital Universitário, o grupo tem acesso a biópsias do intestino de pacientes, tanto de áreas normais quando de regiões inflamadas. Os portadores destas doenças crônicas costumam voltar ao hospital todo ano para realizar biópsias de diversas partes do intestino, de modo a acompanhar o processo inflamatório e a evolução do tratamento.

 

“Descobrimos, com isso, que as células do epitélio intestinal de pacientes com a doença de Crohn têm um aumento enorme de fosfo-Rb no núcleo celular. Já as mesmas células nos pacientes com retocolite ulcerativa apresentam um aumento de beta-catenina no núcleo. Foi a partir dessa descoberta que conseguimos elaborar o kit diagnóstico”, diz Helena. “Vimos também que a beta-catenina protege a célula da morte celular induzida por TNF. Esse é um estudo novo, e está para ser publicado em cooperação com grupos dos Estados Unidos”, finaliza. 

 

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