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Tintura de cabelo durante a gravidez pode representar maior risco de leucemia em crianças menores de 2 anos

Priscila Biancovilli

Um trabalho desenvolvido pelo mestrando Arnaldo Couto, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), relacionou o desenvolvimento de leucemias em menores de 2 anos a um hábito bastante comum entre as mulheres, o de colorir os cabelos durante a gravidez. Iniciado em 2009, sob orientação do Dr. Sérgio Koifman (FIOCRUZ) e da Drª. Maria do Socorro Pombo-de-Oliveira (INCA), a dissertação analisou 650 mães das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Os dados coletados permitiram que se conhecessem mais detalhadamente os hábitos de gestantes, antes e depois do parto. Esta análise faz parte de uma investigação mais ampla sobre os fatores de risco para as leucemias em lactentes iniciado em 1998 e sob a coodernação daqueles dois pesquisadores.

Este é um estudo de base hospitalar, tendo sido os participantes recrutados em quinze instituições em todo o país, sendo os mesmos entrevistados sobre vários hábitos de vida e exposições durante a gestação. O trabalho de Arnaldo Couto consistiu em analisar a freqüência de uso de tinturas e alisantes de cabelo entre as mães de crianças com leucemia e aquelas cujos filhos foram hospitalizados por outras doenças não neoplásicas.

 “Avaliamos também os controles, mães cujos filhos apresentam doenças que não se relacionem com neoplasias. Das 650 mães estudadas, 230 foram casos de leucemias e 420, controles. As crianças do grupo controle tinham a mesma origem geográfica dos casos e a mesma idade. Estudamos esse grupo para que tenhamos uma base de comparação para o estudo estatístico dos casos”, explica Arnaldo.

As entrevistadoras puderam perguntar que marca de tintura foram usadas pelas mães na gravidez, e posteriormente, investigou-se qual era a composição química das mesmas. “Separamos cada mulher dos grupos ‘casos’ e ‘controles’ em ‘expostas’ e ‘não expostas’ a cada um dos produtos químicos listados. De 140 substâncias listadas, houve aumento na estimativa de risco em 34 delas”, diz.

O estudante dividiu as leucemias em dois grandes grupos: leucemia linfóide aguda e leucemia mielóide aguda. O período de uso das tinturas também foi estratificado: 3 meses antes da gestação, 1º, 2º e terceiro trimestre de gravidez e 3 meses após o parto. “Foi observado um aumento na estimativa de risco em 80% na ocorrência de leucemia linfóide em lactentes cujas mães mencionaram uso de tinturas e alisantes de cabelo no primeiro e segundo trimestre da gravidez. Nos dois primeiros trimestres ocorre mais aceleradamente o processo de maturação celular no feto, que está bastante suscetível a agravos do ambiente. “Muitas vezes as mães em início de gravidez ainda não sabem que esperam um bebê e continuam a utilizar tinturas de cabelo e outros produtos químicos prejudiciais ao feto, justamente na fase em que ele está mais vulnerável”.

 “Esse estudo precisa ter continuidade em outros locais para que possamos confirmar os resultados desta dissertação. De qualquer maneira, é importante desde já que as gestantes sejam informadas sobre os riscos do uso de tinturas de cabelo durante a gestação, especialmente durante os primeiros três meses – quando ela ainda não sabe que está grávida – e na lactação. Essa é uma questão importante de saúde pública e meio ambiente que necessita de ampla conscientização popular”, finaliza Arnaldo.

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