Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Câncer de pênis: ainda um tabu

Por Priscila Biancovilli - 16/11/2010

Antonio Augusto Ornellas, urologista do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e membro do Programa de Oncobiologia, dedica-se há quase 30 anos ao estudo dos tumores de pênis. A doença, que afeta cerca de 100 mil homens por ano em todo o mundo, é causa de enorme desconforto e sofrimento para os pacientes, devido muitas vezes à falta de um diagnóstico precoce. Em entrevista ao boletim Onco News, Ornellas explica as causas do câncer de pênis e perspectivas de tratamento. 

1) Quando e como teve início sua pesquisa relacionada a tumores de pênis? Qual foi a motivação para a escolha deste tema?

Quando entrei em 1981 no Instituto Nacional de Câncer, fiquei muito impressionado com a situação dos pacientes com câncer de pênis. Naquela época, assim como hoje, boa parte dos pacientes eram enviados para tratamento no INCA. Os pacientes ficavam, muitas vezes, mais de 60 dias internados por causa das cirurgias de linfadenectomia que causavam uma morbidade muito grande. Após a cirurgia, os pacientes apresentavam em 70% dos casos necroses extensas da região inguinal, sendo necessário deixar cicatrizar por segunda intenção ou intervir novamente com o auxílio do serviço de cirurgia plástica par corrigir os grandes defeitos causados pelas áreas de necrose. Impressionado com a evolução e com o sofrimento desses pacientes, comecei a pesquisar um novo tipo de incisão para linfadenectomia ilíaca e inguinal que pudesse reduzir as altas taxas de necrose. Após a introdução da incisão de Gibson, conseguimos reduzir o percentual de necrose para unicamente 5%, com uma taxa de internação de 6 dias em média. Os nossos resultados foram publicados no Journal of Urology e desde então não paramos mais de pesquisar e publicar artigos sobre câncer de pênis. 

2) De que forma o HPV pode colaborar para o aparecimento de câncer no pênis? 

A incidência da doença está relacionada a maus hábitos de higiene local, fimose e infecção pelo Papilloma Vírus Humano, o HPV. Por ser uma doença rara, quase não existem dados disponíveis na literatura sobre os mecanismos moleculares envolvidos na gênese e progressão do câncer de pênis. O mecanismo pelo qual o HPV leva à transformação maligna é provavelmente mediado por dois genes virais, E6 e E7, que são ativamente transcritos em células infectadas pelo HPV. As proteínas E6 e E7 se ligam, na célula hospedeira, aos produtos dos genes supressores de tumor p53 e pRb, inativando-os e o que leva assim ao crescimento descontrolado. Embora os genes de HPV fossem detectados em quase 100% dos cânceres do colo uterino, a presença de infecção por HPV em câncer de pênis é muito variável. Apesar de ainda não haver provas inequívocas da associação da infecção pelo HPV com o desenvolvimento de carcinoma de pênis, vários trabalhos publicados na literatura apontam para uma associação que varia de 30% a 75%, em especial com o HPV do tipo 16
.

3) Quais são as outras causas conhecidas de tumores penianos?

A etiologia do câncer de pênis não é totalmente elucidada, contudo observamos que sua incidência varia  também de acordo com a prática da circuncisão e da higiene local na população estudada, assim como da exposição ao tabaco.  A presença de fimose é considerada um importante fator de risco no desenvolvimento do câncer de pênis, sendo encontrada em aproximadamente 25 a 75 % dos casos relatados nas grandes séries da literatura. A falta de higiene local faz acumular secreções no saco prepucial que têm efeito irritativo, alimentando um processo inflamatório crônico o que contribui assim para o surgimento do câncer de pênis.  A circuncisão neonatal parece exercer um efeito protetor. A incidência de câncer de pênis na população judaica que pratica a circuncisão neonatal é próxima de zero. Nos países islâmicos, onde a circuncisão é praticada após o período neonatal, a  incidência  aumenta 3 vezes em relação aos judeus. Vários estudos (inclusive os nossos) têm associado o câncer de pênis ao hábito de fumar. O tabagismo seria um fator direto e independente para o aparecimento do câncer de pênis e há, inclusive, uma relação com a quantidade de cigarros, além da duração do hábito de fumar.


4) De que forma este tipo de câncer pode ser detectado mais precocemente?

O ideal é que qualquer lesão suspeita seja imediatamente biopsiada. Muitos médicos que não têm experiência no tratamento do câncer de pênis postergam a indicação da biópsia, tratando os pacientes apenas com pomadas ou antibióticos. É importante informar que o câncer de pênis diagnosticado  precocemente tem cura e que os tratamentos nos estágios iniciais são muito menos invasivos e mutilantes.

5) Existe alguma perspectiva de produção de novos medicamentos/tratamentos?

As melhores perspectivas seriam através do tratamento preventivo, com a utilização de vacinas contra o HPV. Em 08 de junho de 2006, a Food and Drug Administration  dos EUA aprovou o uso de uma nova vacina para prevenir a infecção por quatro tipos de HPV. Dois dos tipos de HPV contidos na vacina (HPV-16 e HPV-18) são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical em todo o mundo. Os outros dois tipos de HPV (HPV-6 e o HPV-11) causam cerca de 90% dos casos de verrugas genitais. A vacina é atualmente recomendada para mulheres jovens antes de se tornarem sexualmente ativas, e seu possível uso masculino está sendo estudado. Uma das várias razões para que as vacinas contra o HPV tenham foco nas mulheres e não nos homens, é que o câncer cervical responderia por 80% dos tumores HPV-relacionados. Cânceres masculinos são, obviamente, uma minoria, mas 20% ainda é uma porcentagem significativa, especialmente considerando a prevalência da infecção pelo HPV. O câncer do pênis afeta 100 mil homens por ano no mundo, e os números estão aumentando. Para os homens heterossexuais, os principais benefícios de uma vacina contra o HPV seriam a prevenção de verrugas genitais, impedindo a potencial infecção de mulheres e, com isso, evitando o câncer de colo uterino. Embora os estudos ainda não tenham sido realizados, a esperança é que a vacina possa, eventualmente, ajudar a prevenir os tipos de câncer ligados ao HPV, incluindo o de pênis. Se a vacina for bem sucedida, sua aplicação pode eventualmente se tornar uma exigência para os meninos e meninas no ensino médio, como uma forma potencial de reduzir a infecção pelo HPV. 


6) Sua pesquisa conta com o apoio de quais fundações/institutos?

No momento contamos com o apoio do Programa de Oncobiologia e da Faperj.

 

design manuela roitman | programação e implementação corbata