Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Vinho contra o câncer

Por Marina Verjovsky - 16/02/2010

Mais uma boa notícia para os enófilos de plantão. Se o vinho já era famoso pela ação antioxidante, pelo controle do mau colesterol e de doenças cardiovasculares, agora tudo indica que também é um forte aliado contra o câncer. Um grupo do Programa de Oncobiologia, coordenado pela nutricionista e pesquisadora do Instituto de Nutrição da UFRJ, Eliane Fialho, identificou os mecanismos de uma importante ação antitumoral da substância chamada resveratrol, presente em alimentos como uva de casca escura, vinho tinto, amendoim e algumas outras plantas.        

“Identificamos que em cultura de células de câncer de mama, o resveratrol é capaz de diminuir a viabilidade destas células e induzir sua morte natural (apoptose), além de regular uma enzima chave envolvida em mecanismos de proliferação e diferenciação celulares que é a caseína cinase II”, explica Fialho. A substância também é capaz de induzir a parada do ciclo de vida dessas células e de regular os níveis de p53, uma proteína supressora de tumor. “Estamos iniciando o estudo que avalia proteínas moduladas por esse composto, por meio de fosfoproteômica (que detecta o nível de fosforilação das proteínas), mas os dados ainda são bem preliminares”. 

Fialho esclarece que vários trabalhos na literatura já têm demonstrado o efeito do resveratrol e de outros compostos bioativos na prevenção de diversos tipos de câncer, porém os mecanismos bioquímicos e moleculares envolvidos ainda estão sendo elucidados. Inicialmente, a função atribuída a essa molécula era de um “antibiótico natural”, mas a equipe observa que as atuações bioquímicas da substância são bem mais complexas do que se imaginava. O grupo também testa a associação do resveratrol com drogas quimioterápicas em culturas de células de câncer de mama. “Futuramente poderia ser oferecido o composto bioativo associado ao quimioterápico em menor quantidade e, quem sabe assim, reduzir os sintomas desagradáveis do tratamento”, comenta a nutricionista.

Este projeto foi financiado pelo Edital Jovem Cientista 2009 da Faperj e pelo último Edital da Fundação do Câncer/Programa de Oncobiologia 2009. Ele conta com a colaboração dos pesquisadores Jerson Lima e Mário Silva-Neto, ambos do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.      

A pesquisadora acredita que outros compostos provenientes de alimentos também podem ajudar na terapia da doença. “Poucos são os ensaios clínicos conduzidos, mas pesquisas desse tipo são necessárias para futuras intervenções”. Portanto, sua equipe também busca pela atuação de outras substâncias, como a galato de epigalocatequina, predominante no chá verde (Camellia sinensis), com resultados ainda muito preliminares, mas considerados promissores pela coordenadora. “Futuramente, testaremos também outras substâncias isoladas ou em associações, pois muitos efeitos são potencializados quando substâncias que apresentam mecanismos diferentes se associam e induzem um efeito sinérgico”.

Nutrição e pesquisa básica  
A nutrição clínica é fundamental no câncer. Quando um indivíduo está realizando quimioterapia várias orientações dietéticas devem ser conduzidas de forma a melhorar a qualidade de vida do paciente. Porém, a pesquisadora explica que atualmente a ciência da nutrição está se inserindo na “era ômica”. Ou seja, em estudos que usam ferramentas como transriptômica, proteômica e metabolômica, para identificar como nutrientes (vitaminas, minerais, etc) ou compostos bioativos (resveratrol, isoflavonas, catequinas, quercetina, alicina, dentre outros) podem regular processos bioquímicos, celulares, fisiológicos tão diversos associados ao câncer e outras doenças.    

Nutricionista com mestrado e doutorado em ciência básica, Eliane Fialho decidiu iniciar este projeto ao abrir a disciplina intitulada Alimentos Funcionais, na pós-graduação do Instituto de Nutrição da UFRJ. “Afinal, por que não associar o conhecimento acerca do que existe na alimentação com os mecanismos disparados no contexto da melhora da doença?”  

“Esta vertente aponta para a interação das ciências básica e aplicada”, ressalta. “A ciência deve ser feita com todas as hipóteses e fundamentos. Todas as áreas se interligam, seja por meio de ensaios clínicos ou estudos epidemiológicos, tudo deve estar coeso. Assim, áreas diversas como a nutrição, farmacologia, psicologia, biologia, engenharia podem atuar conjuntamente para melhorar a qualidade de vida da população”.

Equipe que participa do projeto: a mestranda Paula Seixas, a doutoranda Danielly Ferraz, a pesquisadora Eliane Fialho e a doutoranda Fabiana Casanova.

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