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DNA circulante de vírus: alternativa no diagnóstico de linfomas

Por Roberta Faccion

 

A identificação de pequenos fragmentos de DNA do vírus Epstein-Barr circulante no sangue podem ser utilizados para ajudar no diagnóstico de pacientes com um tipo de linfoma (um câncer das células de defesa do organismo) e a monitorar sua resposta ao tratamento. Este DNA pode ser quantificado e o número de cópias encontrado pode revelar detalhes sobre o curso da doença. Isso é o que sugerem os resultados da dissertação de mestrado defendida no mês passado pelo biólogo Alex Machado, no Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.

 

Esse vírus infecta células de defesa do organismo e em muitos casos é assintomático, mas pode causar a doença mononucleose. Como ele pode modificar o material genético das células, tem sido associado a algumas neoplasias humanas, como o linfoma não-Hodgkin. Porém, antes se procurava pelo DNA do vírus diretamente no tumor, com uma biópsia - o que era um processo mais caro, demorado e invasivo. Neste estudo, utilizando a técnica de qPCR, o grupo já analisou o sangue de 29 pacientes com esse tipo de linfoma e 20 indivíduos saudáveis. Além disso, a fração do sangue usada pode ser obtida dos próprios exames que estes pacientes já fazem normalmente.  

 

Os resultados indicam que a técnica utilizada pode ser uma ferramenta útil no diagnóstico da associação do vírus com o tumor. Inclusive, o estudo pôde mostrar que quando o paciente apresenta recaída, ou seja, quando o linfoma reaparece, a quantidade cópias de DNA do Epstein-Barr no plasma do sangue aumenta. Da mesma forma, quando o linfoma regride, o material genético do vírus diminui e se assemelha à quantidade encontrada em indivíduos saudáveis (assintomáticos).

 

Além disso, a pesquisa analisou 42 pacientes com o linfoma associado a AIDS. Os pacientes com altos níveis de DNA do vírus Epstein-Barr tiveram uma sobrevida pior do que os com níveis mais baixos. Isto indica que a técnica pode ser usada para o diagnóstico, ao diferenciar um grupo que precisa de um tratamento mais agressivo de outro que pode ter boas taxas de cura com o tratamento convencional.

 

Esta capacidade seria muito importante principalmente para ajudar no diagnóstico de crianças com a doença - pois atualmente se mede apenas o nível de uma enzima (LDH) no sangue. A pesquisadora e médica do Instituto Nacional de Câncer e responsável pelo projeto, Claudete Klumb sugere que, no futuro, estes dois fatores possam ser associados para refinar a identificação de pacientes com um pior prognóstico antes do início do tratamento, o que pode auxiliar a escolher uma terapia mais apropriada para este grupo.

 

Além disso, a pesquisadora lembra que ao final do tratamento, muitas vezes é observada, pelos exames de rotina, uma massa de células na região do tumor. Neste caso, a utilização da qPCR para detectar o vírus pode ser útil para saber se aquela massa é de tumor remanescente e por isso o paciente precisa continuar o tratamento, ou se é uma massa já não tumoral e a medicação pode ser encerrada.

 

Um trabalho anterior do grupo mostrou que o vírus Epstein-Barr está presente em 60% dos casos de linfoma não-Hodgkin diagnosticados no Rio de Janeiro, mas este número pode chegar a 87% em estados como a Bahia.

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