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Fraude na ciência

Por Claudia Jurberg

 

A semana que passou foi polêmica no meio acadêmico. Os principais jornais do eixo Rio-São Paulo e outros repercutiram a notícia, que saiu em primeira mão na Folha de São Paulo, sobre fraude num artigo de autoria de 11 pesquisadores da Universidade de São Paulo e que inclusive traz a assinatura da reitora, Suely Vilela, num plágio de trabalho de pesquisadores do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ. O plágio foi em três figuras – originalmente publicadas no artigo editado em 2003 na revista "Antimicrobial Agents and Chemotherapy" - num texto publicado pela "Biochemical Pharmacology", em 2008.

 

Diante dos fatos, que não parecem tão esporádicos, o OncoNews foi ouvir especialista na área, o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz e editor há 11 anos da Revista Brasileira de Educação Médica, Sérgio Rêgo que, em recente palestra no III Fórum de Erro Médico, organizado pela pesquisadora Raquel Maia,no Instituto Nacional do Câncer, abordou o assunto.

 

OncoNews – São raros casos de fraude como esse ?

Sérgio Rêgo – Infelizmente, não. O problema é que no Brasil ainda se detecta muito pouco os casos de fraude. Em tempos de internet, muito se copia sem citar a fonte. A fraude na ciência é uma preocupação mundial e já até existem softwares que detectam cópias de trechos semelhantes. Eu, como editor de um periódico médico, procuro sempre jogar no Google trechos dos artigos para tentar preservar a qualidade dos textos que publicamos. Com essa simples ferramenta, já peguei trechos com cópia integral e sem aspas, além do autor não ter colocado a referência.

Embora não me dedique apenas a isso, foi engraçado, ou melhor, triste, ter encontrado um texto de minha autoria sem a referência citado num site da área de direito. A cópia era praticamente igual. Na época, escrevi para o autor, reclamei e o texto foi retirado do ar.

 

OncoNews – Quais são outros problemas detectados ?

Sérgio Rêgo – Os pareceristas, por exemplo, nem sempre reconhecem os conflitos de interesse. O caso do peer review e a fragilidade desse sistema. É um problema muito frequente e pouco detectado. Às vezes, um artigo fica meses sem um parecer, porque na realidade o parecerista tem interesses, ou por trabalhar em área próxima ou por outros motivos. E nem sempre os editores estão atentos para isso. Por exemplo, eu montei um sistema simples que me dá alertas a cada 20/30 dias que um artigo esteja sob análise. Mas esse sistema pode falhar. O importante, para se evitar essas situações, é que o autor fique atento e cobre da revista os comentários. Os editores podem ter tolerância e não perceber o que está acontecendo. Cabe a eles neutralizar essas situações e controlar as manifestações ruins. Infelizmente, há pouca discussão no Brasil a esse respeito.

 

OncoNews – Como esta essa discussão no exterior ?

Sérgio Rêgo – La fora, a discussão está bem mais adiantada. Por exemplo, o NIH tem uma lista de discussão sobre o aspecto do plágio e da fraude e divulga todos os casos, inclusive com nome, filiação e acaba que o autor, se tiver financiamento público, fica 10 anos sem recebê-los como pena. Além disso, existem outras discussões importantes que envolvem também a relação, por um lado, de indústria farmacêutica, ensaios clínicos e, por outro, médicos e pesquisadores de instituições públicas e o financiamento da indústria na organização de congressos científicos e a viagem de pesquisadores. Mas isso é um outro assunto que dá muita discussão.

 

 

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