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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Inseticidas na mira do câncer de mama

Por Marina Verjovsky

Uma pesquisa coordenada pelo novo membro do Programa de Oncobiologia, Sergio Koifman (da ENSP/FIOCRUZ), aponta para uma possível associação entre antecedentes de uso de pesticidas residenciais (contra baratas, mosquitos e insetos em geral) e o câncer de mama em mulheres jovens sem histórico familiar da doença.

 

Segundo o epidemiologista, vem sendo observado no Brasil um aumento na incidência de casos da doença em mulheres com menos de 40 anos sem historia de agregação familiar de câncer de mama ou ovário, algo inesperado.  Portanto, na tentativa de investigar o que pode ter provocado a doença nestes casos, a equipe analisou um questionário respondido por cerca de 250 pacientes (com menos de 36 anos) diagnosticadas com câncer de mama no Inca e um número semelhante de jovens controles sem antecedentes pessoais de câncer.  

 

Os pesquisadores observaram uma razão de riscos 3,5 vezes maior de uso de pesticidas domésticos em mulheres jovens com câncer de mama relativamente àquelas sem câncer. “O tema é de grande debate na literatura científica. Alguns estudos indicam e outros refutam que os pesticidas estejam associados ao câncer”, afirma Koifman. “Esse trabalho apresenta mais uma importante evidência no sentido desta relação”.

 

Os dados de novas pacientes continuarão sendo coletados e monitorados. Além disso, o grupo ainda pretende fazer análises moleculares do sangue destas pacientes para identificar quais genes estão envolvidos nesse tipo de alteração.

 

Exposição dos pais, risco aos filhos

O pesquisador explica que estudos multicêntricos com dados epidemiológicos de diversas cidades ou países é uma tendência atual que permite estudar a epidemiologia de cânceres raros, como a leucemia do lactente (crianças com menos de dois anos).

 

Com relação a esta doença, o pesquisador também participa de uma rede, coordenada pela pesquisadora do Inca Maria do Socorro Pombo de Oliveira, que estuda fatores de risco para leucemias infantis. Um destes é a exposição dos pais a compostos químicos, que reúne dados de 15 centros médicos de todo o país. Uma importante evidência encontrada pelo grupo, há cerca de dois anos, foi o uso de pílulas de hormônios (anticoncepcionais) durante a gravidez – com um risco oito vezes maior de ter um filho com a doença do que o grupo controle.

 

Este achado foi tão relevante que em 2009, um grupo norte-americano buscou avaliar a associação. Os pesquisadores observaram que os rearranjos do gene MLL (que ocorrem na leucemia do lactente) podem ser induzidos in vitro pela exposição de células aos hormônios estrógenos. Assim, corroboraram os resultados do grupo brasileiro.

 

“O período intra-uterino vem recebendo uma atenção muito grande da comunidade científica ultimamente”, afirma o pesquisador. “Ele é capaz de programar e adaptar o organismo em resposta a diversos fatores e, assim, pode modular o desenvolvimento de diversas doenças crônicas décadas depois, ao longo da vida adulta ”.

 

                                  

Sergio Koifman, pesquisador da ENSP/Fiocruz e membro do Programa de Oncobiologia

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