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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Esclarecer para combater o uso inadequado

Por Marina Verjovsky

Falhas na comunicação entre médicos e a família de pacientes podem prejudicar o tratamento de crianças com câncer, constatou uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), publicada na última edição deste ano da Revista Brasileira de Cancerologia.

O estudo indicou que um alto índice dessas crianças - atendidas no hospital da UnB entre março e agosto de 2002 - utiliza medicinas alternativas junto com o tratamento convencional. A maioria (58,3%) de suas famílias não informou a prática aos médicos, o que pode provocar efeitos colaterais graves, além de interferir nos resultados estatísticos atribuídos às complicações das terapêuticas convencionais.

Foram entrevistados 22 pais, dos quais 12 utilizavam algum tipo de medicina não-convencional para auxiliar o tratamento de seus filhos. Estudos sócio-demográficos dessas famílias constataram que 82% delas tinham renda entre um e dois salários mínimos, sendo que em 77,8% a escolaridade dos pais limitava-se ao 1.º grau - na maioria, incompleto. 

"Acredito que essas pessoas retratam fielmente a população que procura atendimento nos hospitais públicos em nosso país, até porque apenas 50% dos pacientes eram procedentes do Distrito Federal", comenta a médica Elaine Alves, uma das responsáveis pelo trabalho e chefe do Serviço de Oncologia Pediátrica do Centro de Cirurgia Pediátrica do HUB/UnB.

A fitoterapia foi apontada como o procedimento mais utilizado por essas famílias, tanto isoladamente (50%), como em combinação com outras modalidades (75%) e não foi relatado o uso de vitaminas industrializadas - de custo bem mais elevado - que são bastante utilizadas em países desenvolvidos.

Elaine exemplifica os efeitos colaterais provocados por algumas das plantas mais usadas nesses casos: "O borago (Borago officinalis ) pode causar doença veno-oclusiva; a tussilagem (Tussilago farfara) pode provocar necrose hepática; o eucalipto (Eucalyptus globulus), ataxia (falha na coordenação dos movimentos do corpo); a cânfora (Cinnamomum camphora), convulsões; o ginseng (Panax quinquefolium) , hipertensão; o alho (Allium sativum), o gengibre (Zingiber officinale) e o ginkgo (Ginkgo biloba) exibem atividade antiplaquetária e podem potencializar os efeitos das medicações anticoagulantes, levando ao sangramento."

A médica adverte, portanto, que o uso de terapias alternativas deve ser fortemente desencorajado. "Elas privam a criança do seu direito de receber o tratamento adequado existente e significa a perda da melhor chance de sobrevida (e cura)".  Porém, ressalva que as terapias complementares (usadas juntamente com a medicina convencional) podem não apresentar risco. "É o caso das preces, massagens, técnicas de relaxamento e meditação, etc. Estas trazem suporte psicológico para a criança e sua família e não devem ser desestimuladas".

Porém, nenhum dos pais entrevistados recebeu informações ou alguma orientação por parte da equipe médica a respeito dos tratamentos complementares e alternativos, apesar de apenas um ter afirmado não desejar obter esclarecimentos a respeito. O grupo que realizou a pesquisa demonstrou grande interesse em identificar as causas que dificultam essa comunicação e afirmou estar em fase de planejamento de uma investigação nesse sentido. 

"É preciso que a equipe médica demonstre atitude imparcial, que não desencoraje a comunicação e permita uma abordagem aberta e franca do problema", acrescenta Elaine. "Para tal, é preciso que ela esteja informada dos efeitos adversos das práticas não-convencionais, mas também de seus eventuais benefícios".

Equipe da UnB que participou da pesquisa

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