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Utilidade de DNA lixo ganha destaque

Por Marina Verjovsky

Uma pesquisa brasileira chama atenção da comunidade científica e bate recorde de acessos no banco de dados da revista Genome Biology. Mais de cinco mil pessoas já acessaram o artigo, antes mesmo de ser publicado na versão impressa da revista. A descoberta deu mais importância aos íntrons - trechos do DNA no núcleo das células conhecidos como ‘DNAs lixo’ por não codificarem proteínas - e abriu espaço para novas abordagens genômicas na pesquisa do câncer.

O estudo sugere que uma grande parcela desses fragmentos do código genético, na verdade, produzem RNAs não-codificadores de proteínas que ajudam a regular a maioria dos genes codificadores de proteínas. O trabalho, liderado pelo pesquisador do Instituto de Química da USP, Sérgio Verjovski-Almeida, indica ainda que esses RNAs não-codificadores podem constituir mais um fator que determina as diferenças entre os diversos tecidos humanos. 

A equipe pesquisou milhares de genes em bancos de dados públicos e verificou que, nas regiões do ‘DNA lixo’ chamadas de introns inseridas em 74% de todos os genes humanos que codificam proteínas, se originam mais de 55 mil fragmentos de RNAs não-codificadores. Outra análise, que mediu diretamente a expressão de mais de sete mil desses RNAs não-codificadores, indicou padrões na expressão deles entre células de rim, fígado e próstata. “Determinadas seqüências de íntrons são expressas apenas em cada tipo de tecido enquanto outras são ativadas igualmente nos três tipos diferentes”, explica o pesquisador.

O grupo também observou que os RNAs intrônicos podem contribuir no controle das proteínas que regulam a transcrição do DNA em RNA. Essas proteínas se ligam no DNA e regulam a atividade da enzima que faz a transcrição (RNA-polimerase II) e são conhecidas como "fatores de transcrição" e "zinc-finger". Isso ocorre porque os fragmentos de íntrons mais ativos, isto é, aqueles que geraram RNAs não-codificadores mais abundantes, estão inseridos dentro dos genes que codificam a produção destas proteínas regulatórias. Inclusive, os dois tipos de RNAs devem ser sintetizados por enzimas diferentes , pois a quantidade dos intrônicos aumenta quando é inibida a RNA polimerase II .

“Já observamos, em trabalhos anteriores, que os RNAs provenientes dos íntrons regulam a expressão de alguns genes relacionados ao desenvolvimento do câncer de próstata”, conta Verjovski-Almeida. “Porém, nos surpreendemos ao ver que esse papel regulatório pode ser generalizado e não restrito a poucos genes”. O pesquisador afirmou ainda que o próximo passo da equipe é analisar a expressão desses genes no mesmo tipo de tecido com e sem câncer – etapa que deve ser concluída até o final de 2007.

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