Portal do Programa de Oncobiologia

Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Neurônios adultos originam o câncer da retina

Por Marina Verjovsky

Uma pesquisa desenvolvida por cientistas brasileiros, japoneses e norte-americanos quebra paradigmas e desvenda mecanismos de formação do câncer de retina. A equipe observou pela primeira vez que, em camundongos geneticamente modificados, o retinoblastoma (câncer da retina) não decorre da proliferação descontrolada de células precursoras, mas de neurônios já diferenciados da retina. O estudo mostrou que estas células re-entram no ciclo celular e se dividem sem perder as conexões sinápticas com outros neurônios. Além disso, elas geram um câncer bastante agressivo (capaz de invadir outros tecidos).
 
Esses achados chamaram especial atenção da comunidade cientifica, pois abalaram a idéia de que diferenciação e proliferação são processos incompatíveis (ao mostrar que neurônios tão diferenciados têm esse potencial de divisão). A descoberta alimenta a esperança de que possamos, um dia, alterar a atividade de genes específicos em neurônios diferenciados e, assim, induzir a proliferação de neurônios maduros. Isso permitiria substituir neurônios que morrem em doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e Parkinson.
 
"Acredito que esse trabalho é relevante não só para os que estudam o desenvolvimento e formação de tumores no sistema nervoso central, mas para toda a comunidade de oncobiologia", afirmou o biólogo Rodrigo Martins, um dos autores do estudo. Martins participou do Programa de Oncobiologia durante sua pós-graduação no Instituto de Biofísica da UFRJ, sob orientação do Prof. Rafael Linden. Desde 2005, faz pós-doutorado no St Jude Chidren's Research Hospital (nos EUA), no laboratório do Dr Michael Dyer, chefe da equipe que desenvolveu este estudo - publicado na última edição da revista científica norte-americana Cell.
 
Retinoblastoma já ensinou importantes lições

Não é de hoje que o câncer de retina fornece importantes contribuições no estudo em oncobiologia. Em humanos, esse tipo raro de câncer que só acomete crianças, decorre de mutações do gene Rb. Este foi o primeiro gene supressor de tumor, clonado em 1986.
 
Os primeiros modelos de camundongo geneticamente modificados mostraram que animais com apenas um alelo do gene Rb não desenvolvem retinoblastoma, enquanto crianças com essa característica apresentam câncer de retina. Somente depois da descoberta das funções compensatórias dos genes de p107 e p130, os cientistas foram capazes de desenvolver modelos de retinoblastoma em camundongos. Juntas, as três proteínas controlam a capacidade de células imaturas se dividirem regulando um importante fator de transcrição gênica (E2F).

Ao aprofundar os estudos sobre as funções específicas de cada um desses genes na retina descobriu-se que a influência desses genes não é igual. Neste trabalho, o grupo analisou o desenvolvimento de retinas que tinham somente um dos alelos do gen p107 e se surpreendeu ao observar retinas com número desproporcional de interneurônios horizontais. Estudos subseqüentes demonstraram que isso era conseqüência da re-entrada no ciclo celular e da proliferação descontrolada destes neurônios no ciclo celular.

"Este estudo reafirma a importância de se estudar os mecanismos que controlam divisão celular e a prevenção da re-entrada no ciclo celular em diferentes sistemas biológicos", conclui Martins. Agora revigorada, a comunidade científica começa a repensar as estratégias de terapia de retinoblastoma e outros cânceres decorrentes de mutações em genes supressores de tumores. 

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