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Anêmonas otimizam quimioterápicos

Por Marina Verjovsky

Surge uma nova esperança para amenizar os efeitos colaterais do tratamento contra o câncer. Pesquisadores brasileiros demonstraram que toxinas de anêmonas-do-mar podem aumentar a ação de quimioterápicos contra células de um tipo comum de câncer no cérebro humano. Caso seja possível uma futura aplicação clínica, estas substâncias poderiam diminuir consideravelmente as doses dos medicamentos em pacientes.

O estudo foi realizado pela equipe de Vivaldo Moura-Neto e Helena Borges, do Departamento de Anatomia da UFRJ e de Nelson H. Gabilan, do Departamento de Bioquímica da UFSC. Foram usados dois tipos de anêmonas-do-mar, chamadas Bunodosoma caissarum e Actínia eqüina, encontradas no litoral brasileiro. As toxinas foram extraídas do veneno (normalmente usado para capturar presas) que esses animais liberam quando são imersos em água doce.

Os pesquisadores juntaram as toxinas com as células de tumor do cérebro (glioblastoma) cultivadas em laboratório e três tipos diferentes de quimioterápicos: Ara-C, Doxorrubicina e Vincristina. Todos os medicamentos tiveram ação aumentada, mas o resultado mais impressionante ocorreu com a droga Vincristina, que se tornou 150 vezes mais eficaz em destruir as células tumorais. "Acreditamos que é possível que estes resultados se repitam com outros quimioterápicos e outros tipos de câncer, mas seria necessário fazermos os testes antes", afirmou a doutoranda Rossana Colla Soletti, que participou do trabalho.

Além disso, Soletti explica que as substâncias têm mais afinidade com as células do câncer do que com as sadias. Isso ocorre porque as toxinas precisam se ligar a determinados lipídeos (moléculas de gordura) que ficam na parte externa das células - que são mais abundantes nas cancerosas. "Já se sabia que essas anêmonas continham toxinas que formam poros nas membranas das células", conta Soletti. "Por isso, pensamos que elas poderiam representar uma maneira eficaz de matar as células tumorais e de aumentar a atividade dos quimioterápicos já conhecidos".

A produção destas substâncias em larga escala seria comercialmente viável, pois a equipe já consegue produzir uma dessas toxinas em laboratório. Mas Soletti afirma que muita pesquisa ainda é necessária até que uma droga chegue às prateleiras das farmácias. "Após inúmeros ensaios em animais, são realizados testes pré-clínicos e clínicos. Somente após resultados positivos em todas essas etapas é que se pode pensar em comercializar um medicamento", explica. "Esse processo todo pode levar mais de 10 anos". O próximo passo da pesquisa é testar o efeito dessas substâncias em animais de laboratório e averiguar se não são tóxicas para as células saudáveis do organismo. Eles também pretendem entender melhor o mecanismo de ação das substâncias nas células.  

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