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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Glicose e metástase tumoral: uma relação que precisa ser desvendada

Priscila Biancovilli

A biossíntese de hexosaminas, substâncias derivadas do açúcar, podem ser um alvo para o diagnóstico e terapia do câncer. Este é o foco do trabalho da pesquisadora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, Adriane Todeschini, recém integrada ao Programa de Oncobiologia. Ela explica que as hexosaminas, quando ligadas às proteínas ou lipídeos, originam os glicoconjugados, que estão envolvidos em uma variedade de processos no organismo, como adesão, migração, crescimento e diferenciação celulares.

“Há muito é sabido que alterações na biossíntese de glicoconjugados estão fortemente envolvidas na indução de invasão e metástase do câncer. Nossa hipótese é que mudanças no metabolismo celular induzem a biossíntese de glicoconjugados aberrantes, provocando alterações na comunicação celular que desencadeiam o processo tumoral”, explica a cientista.

Adriane escolheu trabalhar com este tema depois de passar pela experiência de se tratar contra um câncer de mama. “Durante as quimioterapias, os enfermeiros serviam balas para alegrar os pacientes. Minha mãe, que me acompanhava, recomendava que eu não comesse os doces, pois o câncer se nutre de açúcar. Isso fazia sentido para mim, pois a glicose é substrato para a biossíntese de glicoproteínas e estas, por sua vez, desenvolvem um importante papel na progressão do tumor e no diálogo do sistema imune com as células tumorais”, relata.

Logo que a pesquisadora voltou ao laboratório, decidiu testar qual seria o impacto do aumento da concentração de glicose em culturas de células de adenocarcinoma de pulmão. A hiperglicemia alterou a morfologia e aumentou a migração destas células. “Estes resultados me estimularam a estudar por qual mecanismo o aumento da concentração de glicose aumentou a malignidade do tumor e como poderíamos inibir este mecanismo”, continua.

“A modulação farmacológica ou genética da GFAT, enzima chave da via de biossíntese de hexosaminas, levou a redução significativa do crescimento tumoral, motilidade celular e metástase. Demonstramos, através de biópsias de pacientes com carcinoma de cólon, que as células tumorais expressam mais GFAT e glicanos aberrantes quando comparados ao tecido normal adjacente. Esse e outros trabalhos sugerem a GFAT como um alvo promissor para o tratamento tumoral”, afirma a pesquisadora.

Nos próximos anos, o grupo de trabalho coordenado por Todeschini pretende desvendar as alterações metabólicas que são desencadeadas pela exposição de células tumorais à hiperglicemia, além de observar quais são as proteínas e os glicanos alterados e como a via das hexosaminas é mobilizada frente à variação da glicemia. “Responder a essas perguntas pode proporcionar, no futuro, uma série de alvos para quimioterapia do câncer”, finaliza.

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