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Programa interinstitucional de ensino, pesquisa e extensão em biologia do câncer

Veja o que saiu na mídia sobre câncer - 17/11/2014

À primeira vista, a pesquisa científica de ponta do Brasil parece estar ocupando espaços cada vez mais ambiciosos na corrida mundial, com número recorde de publicações de artigos e investimentos crescentes. A própria presidente Dilma Rousseff enfatizou, em seu discurso pós-reeleição, que o país está cada vez mais voltado para a ciência e a inovação. Mas quem está cotidianamente no front garante que a situação não é tão dourada, e o principal motivo da falta de competitividade científica são, sobretudo, as exigências burocráticas e os entraves jurídicos. Entre as dificuldades mais comuns está a importação de insumos e equipamentos, já que dependemos do mercado internacional. E um levantamento inédito revela que 46% dos cientistas já perderam material retido na alfândega; 95% já deixaram de fazer ou alteraram estudo por problemas na importação; e 51% já o modificaram ou cancelaram por não conseguir substâncias controladas.
 
O estudo foi conduzido pelo neurocientista da UFRJ e do Instituto D'Or Stevens Rehen, a partir de entrevistas com 165 cientistas de 35 centros de pesquisa em 13 estados. Sua principal motivação é cobrar melhorias, o que faz desde 2004. Mas, segundo ele, o cenário pouco mudou no período.

- O desenvolvimento da pesquisa continua emperrado pela burocracia - resume Rehen.

Quase todo pesquisador tem pelo menos uma história para contar sobre problemas relacionados a ela, e Rehen lembra que, há menos de um mês, um reagente importado foi confiscado no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), pelo serviço de vigilância agropecuária:

- O produto não era de origem animal ou de interesse veterinário, mas foi barrado pelo setor. Resultado: o reagente foi perdido, a pesquisa, atrasada, e o gasto, em vão.

Dinheiro a mais não se traduz em impacto

Esse foi um dos motivos que levaram o biólogo molecular Alysson Muotri a seguir carreira científica na Universidade da Califórnia em San Diego, nos EUA.

- As diferenças são consideráveis. Se não fosse pela burocracia, provavelmente eu estaria no Brasil afirma Muotri, ressaltando que o problema de modo algum se relaciona à competência dos cientistas nacionais:

- Eles (os brasileiros) têm o mesmo nível de capacitação e, no caso das ciências biológicas, um orçamento até maior do que o nosso (da Universidade da Califórnia). Mas acabam precisando de mais recursos para fazer a mesma coisa.

Um levantamento da empresa Thomson Reuters, detentora do maior banco de dados científico do mundo, mostrou que, em números de publicações, saltamos de 24ª para a 13ª posição no ranking mundial em 20 anos. E um estudo publicado em junho pela revista "Nature" revela que o Brasil quintuplicou o número de publicações científicas e triplicou os recursos financeiros no setor em duas décadas. Ano passado, atingiu a marca de 46.306 artigos e de R$ 59,4 bilhões investidos (pelos setores público e privado), mais que o dobro do que foi gasto na Copa do Mundo (R$ 25,6 bilhões). Segundo a revista, entretanto, os números não se traduzem em competitividade, quesito em que, na América Latina, estamos atrás de Peru, Argentina, Chile e Colômbia.

O problema vai muito além da taxação ou da demora da importação. Estende-se a leis anacrônicas, que não acompanham o avanço dos estudos. E que se traduz, por exemplo, no veto legal ao uso de determinadas substâncias, como o canabidiol, derivado da maconha e proibido por aqui. Os pesquisadores Antonio Zuardi, da USP, e Fabrício Moreira, da UFMG, estudam as propriedades medicinais da erva e confirmam as dificuldades.

- Há dois anos, um laboratório inglês aprovou nossa pesquisa e nos forneceria o canabidiol sem custo algum, mas essa importação nunca foi realizada por questões legais - conta Moreira. O curioso é que o canabidiol nem é a substância responsável pelos efeitos da maconha. É segura e com potencial terapêutico.

Professora do Laboratório de Oncobiologia Molecular da UFRJ, Patricia Zancan desistiu antes mesmo de tentar importar amostras de plasmídeo (moléculas de DNA) da Universidade de Harvard (EUA). Isso por conta das inúmeras orientações que recebera, como "autorização do Ministério da Agricultura, protocolo de inativação, destruição e disposição do material importado e seus resíduos", entre outras obrigações.

- Como conseguiria registros e declarações de inspeção sanitária? Documentos veterinários? Obviamente esse tipo de burocracia nos obriga a fazer tudo na ilegalidade! - critica.

Franklin David Rumjanek, do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, diz que a ciência nacional vive num cenário cruel e critica os altos impostos e custos de importação. Ele cita que um produto que costuma importar custa 300 na Europa e chega aqui por R$ 3 mil.

- O cientista é penalizado - lamenta. É muito difícil o trabalho ser aceito numa revista científica relevante. Quando isso acontece, é comum os editores darem um prazo para a realização de mais testes. Comumente perdemos o prazo porque o material não chega. Às vezes, decidimos publicar numa revista de menor impacto e com menos exigências.

Fonte: Jornal O Globo - 09/11/2014

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